A busca por livros clássicos. E dicas para vencê-los

Em meio ao isolamento social, leitores do mundo todo decidem enfrentar histórias clássicas, que seguem relevantes mesmo décadas ou séculos após suas publicações

O isolamento social em meio à pandemia do novo coronavírus impulsionou a procura por formas de entretenimento no mundo todo. Games, quebra-cabeças, jogos de tabuleiros e livros registraram aumento de buscas no Google, segundo o Trends, ferramenta que monitora as pesquisas feitas na plataforma.

Com esse cenário, algumas pessoas estão aproveitando o tempo para mergulhar na leitura de clássicos, com parte delas se organizando coletivamente para isso.

É o caso da hashtag #TolstoyTogether, no Twitter, que reúne cerca de 3.000 pessoas do mundo todo numa leitura coletiva de “Guerra e paz”, escrito por Liev Tolstói na década de 1860.

Em “Guerra e paz”, Tolstói conta a história de famílias da aristocracia russa entre os anos de 1805 e 1820, passando por eventos históricos como a invasão francesa à Rússia no ano de 1812, sob a liderança de Napoleão Bonaparte. 

A iniciativa partiu da escritora sino-americana Yiyun Li em parceria com a revista digital A Public Space. A cada dia, os participantes leem um trecho do livro e registram suas impressões no Twitter.

Por que ler os clássicos

O consenso acadêmico é que os clássicos são livros que continuam relevantes mesmo décadas – ou séculos – depois que foram publicados, com seus temas seguindo pertinentes de alguma forma aos leitores.

“Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, afirmou o escritor italiano Italo Calvino no livro “Por que ler os clássicos”, de 1991.

Isabella Lubrano, jornalista e finalista do prêmio Jabuti 2018 na categoria de projetos para a formação de novos leitores com o canal de YouTube Ler Antes de Morrer, tem no argumento de Calvino a principal justificativa para alguém se engajar na leitura dos clássicos em 2020.

“Os clássicos não envelhecem, eles continuam fazendo muito sentido, não importa quantas gerações se passem”, afirmou ao Nexo. “Nós lemos clássicos porque identificamos nesses livros os mesmos dilemas que a gente vive”, disse, apontando o fato de que livros como “A peste”, escrito por Albert Camus em 1947 e “Ensaio sobre a cegueira”, escrito por José Saramago em 1995, discutem questões que estão presentes em meio ao cenário de pandemia.

“Há uma necessidade metafísica das pessoas de confrontar seus próprios medos, incertezas e angústias, em um período em que todo mundo está com medo”, concluiu. 

Sandra Guardini, professora de teoria literária e coordenadora do Laboratório de Estudos do Romance da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, também reitera o argumento feito por Italo Calvino.

Para ela, os clássicos não só continuam a ter relevância entre as gerações, como podem, ao longo do tempo, levar novas camadas de significado e compreensão para o mesmo leitor, que acumulou novas experiências no decorrer da vida. 

“São obras que o tempo consagrou, e que trazem experiências humanas que, ainda que estivessem enraizadas no momento da produção dos livros, têm algo a dizer para nós em outras épocas”, afirmou ao Nexo.

Como vencer os clássicos

Ler os clássicos, porém, pode ser uma tarefa desafiadora, por causa de fatores como o tamanho dos livros, o ritmo deles ou então a escrita em uma linguagem que não nos é habitual. 

Isabella Lubrano afirma que o primeiro passo para conseguir vencer os clássicos é reconhecer as próprias limitações, em especial com aqueles textos que são muito antigos, como os escritos na Idade Média ou nos séculos 15 e 16. 

“Esses realmente são muito difíceis, porque a linguagem é completamente diferente, as referências simbólicas, as mitologias e as passagens bíblicas não fazem parte das nossas referências culturais”, afirmou, dizendo que, para esses, o acompanhamento de um professor ou a expertise são necessárias. 

Já para clássicos menos antigos ou até mesmo contemporâneos, a recomendação de Lubrano é buscar boas edições, boas traduções, textos de apoio, vídeos e outros materiais que possam ajudar a traçar o panorama da obra, de seu autor e do contexto geográfico, político e temporal no qual ela foi escrita.

A professora Sandra Guardini reconhece que, em muitos casos, os clássicos são exigentes e apresentam desafios para os leitores por trazerem uma linguagem que não é necessariamente acessível e uma estrutura narrativa mais complexa. Para ela, o essencial é a persistência e o mergulho de peito aberto nas obras.

“O leitor tem que estar disposto a enfrentar esses desafios”, disse. “Muitas vezes existe um certo temor em como enfrentar essas obras, mas acho que temos de encará-las de espírito aberto, embarcar na aventura”, afirmou. 

Guardini diz acreditar que o leitor se acostuma gradualmente com as particularidades de cada obra, até mesmo aquelas que são mais difíceis. Para ela, há um encanto que vai sendo criado conforme o avanço na leitura.

Contudo, ela ressalta que mesmo com a persistência e o espírito aberto, a compreensão completa da obra pode não ser imediata, até mesmo em leitores mais experientes, e que, por isso, a releitura se faz importante. “Os clássicos sempre são um convite à releitura”, disse. 

A crítica literária Camila von Holdefer, que escreve para a revista Quatro Cinco Um, diz achar que é necessário afastar a ideia de que clássicos são intimidadores. “A aura que alguns desses livros carregam mais aparta do que aproxima”, disse ao Nexo

“Nem todo clássico é fácil de ler, é verdade, mas o que não é tão simples não precisa, ou não deveria, ser intimidador. O difícil não é impossível, para usar um clichê. Basta ter em mente que o esforço de leitura é recompensador”, afirmou. 

Segundo Holdefer, a perseverança, especialmente no começo da obra, é necessária. Outra dica é que o leitor busque boas edições, que trazem consigo notas e outros textos complementares sobre a obra e o autor – ferramentas que, de acordo com ela, não devem ser usadas em excesso. 

Por fim, a crítica literária recomenda que, nos clássicos estrangeiros, o leitor evite as edições que contam com traduções indiretas – aquelas que foram traduzidas para outro idioma antes de serem vertidas para o português. 

Clássicos para ler na quarentena

Isabella Lubrano recomendou “Cem anos de solidão”, escrito em 1967 por Gabriel Garcia Márquez, como um clássico para se ler na quarentena. “Talvez o maior romance já escrito em língua espanhola. Alguns dizem que é ‘Dom Quixote’, mas na minha opinião é o ‘Cem anos de solidão”, disse.

Em “Cem anos de solidão”, Márquez conta a história de sete gerações dos Buendía, que vivem no pequeno vilarejo de Macondo. Ao longo de um século, eles tentam desvendar misteriosos pergaminhos deixados por um amigo da família. 

A jornalista também recomendou “O sol é para todos”, escrito em 1960 pela americana Harper Lee. “É tranquilíssimo de ler, uma leitura fluida, deliciosa, excelente para se ter o primeiro contato com um chamado livro clássico”, afirmou. 

O romance é narrado pela perspectiva da pequena Jean Louise Finch, uma garota de seis anos que mora numa pequena cidade do Alabama e vê seu pai, o advogado Atticus Finch, defendendo Tom Robinson, um homem negro acusado injustamente de estuprar uma jovem branca. Em 1962, o livro serviu como base para o filme homônimo estrelado por Gregory Peck (“Cabo do medo”). 

A professora Sandra Guardini indicou a leitura de “Grande sertão: Veredas”, escrito pelo mineiro João Guimarães Rosa em 1956. “É um dos grandes monumentos da história do romance, não só dos romances brasileiros”, afirmou.

Em “Grande sertão: Veredas”, Rosa conta a história do jagunço Riobaldo, que narra ao leitor sua vida na região sertaneja da Bahia e de Minas Gerais. A obra fez com que Guimarães Rosa se tornasse um dos grandes nomes da literatura nacional e um dos três principais escritores da terceira geração modernista do país. 

Guardini também recomendou a leitura de “A vida e opiniões do cavalheiro Tristram Shandy”, escrito pelo britânico Laurence Sterne em 1759. “É um romance espetacular, mas ele é distante no tempo e no espaço”, afirmou. 

Em 720 páginas, que contam com uma veia cômica e doses de sarcasmo, Sterne coloca o protagonista, o excêntrico Tristram Shandy, para narrar a própria vida, com muitas idas e vindas.

A crítica literária Camila von Holdefer recomendou a leitura da tragédia grega “Antígone”, escrita por Sófocles em 442 a.C., na tradução de Trajano Vieira lançada em 2009. “Me parece um bom momento para alguém descobrir a desobediente ‘Antígone’”, afirmou. 

A peça conta a história de Antígone, uma das filhas de Édipo, condenada à morte após desejar um enterro digno para um de seus irmãos. A tragédia fecha a história do ciclo tebano de Sófocles, que tem as peças “Édipo Rei” e “Édipo em Colono” como as outras partes da saga. 

Ela também indicou a leitura de “A educação sentimental”, escrita pelo francês Gustave Flaubert em 1869, na tradução de Rosa Freire d’Aguiar lançada em 2017. “Pode se revelar uma leitura interessante”, disse. 

O livro conta a história de Frédéric Moreau, um jovem francês do século 19, que se vê apaixonado por uma mulher mais velha. “A educação sentimental” é considerado uma das principais obras de Flaubert, ao lado de “Madame Bovary” (1857) e “Salambô” (1862).

Fonte: Nexo Jornal