A expectativa do mercado para a economia brasileira em 3 gráficos

O risco Brasil medido pelo CDS (Credit Default Swap) atingiu na terça-feira (29) o menor nível desde maio de 2013. A pontuação reflete, em linhas gerais, a percepção que o mercado tem da saúde financeira de um país e da capacidade que ele terá de pagar as suas dívidas. Se as expectativas dos agentes quanto ao andamento da economia são positivas, o risco tende a cair. Se as expectativas são de deterioração no cenário econômico, o risco tende a subir.

Nesse contexto, é normal que as perspectivas dos agentes de mercado sejam moldadas a partir do que ocorre tanto na política quanto na economia. Afinal, os sinais de estabilidade ou turbulência na trajetória de um país são importantes na decisão de um investidor de colocar ou não dinheiro em determinado mercado.

Em 2019, a principal pauta da agenda econômica do governo brasileiro, a reforma da Previdência, foi aprovada após tramitação de sete meses no Congresso. Agora, a prioridade da equipe do presidente Jair Bolsonaro é seguir promovendo mudanças que visam a atacar o deficit fiscal. Desde 2014, a União gasta mais do que arrecada durante o ano – isso sem contar os gastos com juros da dívida pública. As próximas mudanças no foco do Palácio do Planalto envolvem o pacto federativo, a reforma administrativa e a reforma tributária. A leitura dos agentes do mercado sobre o momento econômico do Brasil aparece de diversas formas: no preço de papéis negociados na bolsa, em índices e em relatórios. Abaixo, o Nexo mostra em três gráficos como estão as expectativas do mercado com relação à economia brasileira.

O Credit Default Swap 

O Credit Default Swap não é exatamente um índice de risco, mas ele acaba servindo como um medidor da percepção dos investidores sobre a economia.

Na prática, o CDS, como é conhecido, é um papel que é negociado diariamente no mercado. Ele serve como uma espécie de seguro contra inadimplência ou calotes. Como em qualquer seguro, se a percepção de risco é alta, o preço fica mais alto. De forma inversa, se o entendimento é de que há pouco risco, o preço do seguro cai.

Quem tem títulos da dívida brasileira pode comprar CDS para tentar evitar prejuízos. Por serem papéis que circulam no mercado, seu preço varia de acordo com a oferta e a procura. Quanto mais forte é a percepção de que o Brasil é arriscado, maior é a procura por esses títulos, e mais alto fica o preço.

PERCEPÇÃO DE RISCO BAIXO

O risco Brasil refletido pelo CDS viu uma escalada a partir da segunda metade de 2014. Segundo o Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos da FGV), a forte recessão pela qual passou a economia brasileira começou justamente nessa época, no segundo trimestre de 2014.

A escalada do risco-país teve como ápice o mês de dezembro de 2015, quando o processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff foi aceito na Câmara dos Deputados.

Naquele momento, o grau de investimento do Brasil em agências de risco como Standard and Poor’s e Fitch já havia sido retirado – dois meses depois, foi a vez da Moody’s.

O risco Brasil começou a cair a partir do primeiro semestre de 2016, momento que ficou marcado pelo avanço do impeachment de Dilma, que acabou substituída no cargo pelo vice, Michel Temer, em maio daquele ano. Em 2018, a pontuação do CDS voltou a subir, o que perdurou até o fim do período eleitoral brasileiro.

Em 2019, o mercado vem reagindo com otimismo à agenda econômica do governo Bolsonaro. O risco refletido no CDS observou queda acentuada após a aprovação da reforma da Previdência no Congresso, em 22 de outubro. Isso levou o risco ao menor patamar desde maio de 2013 – antes das Jornadas de Junho daquele ano e antes também do início da recessão econômica brasileira.

O EMBI+ e a diferença de juros

Ao contrário do CDS, o EMBI+ não é um papel, e sim um índice criado pelo banco americano JP Morgan. A sigla representa Índice de Títulos de Países Emergentes em inglês.

O índice compara os juros pagos pelos títulos de dívida brasileiros (ou de qualquer país que esteja sendo analisado) aos de papéis da dívida americana, considerados de baixíssimo risco. Ao fazer essa comparação, o EMBI+ mede quanto os investidores exigem de diferencial de rendimentos para emprestar dinheiro ao Brasil.

Quanto maior a percepção de risco de calote, maior será esse diferencial. Afinal, se a chance de receber o dinheiro de volta é menor, o agente irá cobrar um extra por correr esse risco.

Assim como no caso do Credit Default Swap, o risco avaliado pelo EMBI+ também teve escalada significativa a partir de 2014, culminando nos primeiros meses de 2016. Também houve queda a partir do primeiro semestre de 2016 e aumento durante o período da campanha presidencial de 2018. Mas, ao contrário do CDS, o EMBI+ não teve uma queda tão acentuada em 2019.

Em comparação ao período anterior à recessão, o índice observado em outubro de 2019 está no mesmo patamar do nível observado em março de 2014. As expectativas do mercado com a economia brasileira estão melhorando em relação a como estavam durante o período da crise.

O relatório Focus

A cada semana, o Banco Central divulga o relatório Focus, que compila as projeções de economistas de bancos, corretoras, agências de câmbio e de outros participantes do mercado financeiro e do setor empresarial. São mais de 100 opiniões que são coletadas semanalmente por meio de uma pesquisa feita por um sistema online.

O Focus traz as expectativas do mercado de como o PIB (Produto Interno Bruto), a inflação, o câmbio, a taxa de juros e outros importantes indicadores econômicos terão evoluído até o final do ano. As perspectivas dos agentes são compiladas também para os três anos seguintes.

Além de mostrar como os mercados esperam que a economia irá se comportar, o relatório Focus registra como essas expectativas evoluíram ao longo do tempo.

Ao olhar a evolução da expectativa do mercado para o nível de atividade da economia brasileira, percebe-se que, até março de 2019, a crença era de que o PIB tivesse um crescimento de cerca de 2,5% no total do ano de 2019. Mas, diferentemente do refletido no CDS e no EMBI+, as expectativas se deterioraram ao longo do ano.

Entre março e junho, as expectativas para o PIB brasileiro em 2019 caíram de um aumento de 2,5% para um aumento na faixa de apenas 0,85%. Nos meses que seguiram, essa perspectiva se estabilizou, observando apenas um leve aumento em agosto e outro no final de outubro, quando a reforma da Previdência foi aprovada no Senado.

Já as expectativas para o PIB em 2020 também estavam em 2,5% até o início de 2019. Entre meados de fevereiro e meados de abril, elas tiveram uma leve melhora, mas logo voltaram ao patamar anterior. A partir de junho, houve uma queda gradual até chegar em setembro ao nível de 2%, no qual permaneceu estável.

Fonte: Nexo Jornal