Cenário externo: uma repetição de 2018?

Até recentemente, eram raros aqueles que consideravam o ambiente externo como uma fonte importante de risco para os mercados domésticos neste ano. Essa aparente falta de preocupação em relação aos riscos vindos de fora estava fortemente baseada na crença de que os bancos centrais de países desenvolvidos iriam atuar no sentido de contrapor uma eventual desaceleração global e seriam capazes de promover um “pouso suave”, isto é, gerenciar uma eventual queda de crescimento econômico sem que suas respectivas economias entrassem em recessão.

Esse diagnóstico, aliás, não é particularmente recente. Desde o final do ano passado os bancos centrais de economias avançadas vêm sendo bastante vocais em afirmar que atuariam para evitar a perda de ímpeto de seus respectivos blocos econômicos. A consequência para os mercados dessa mudança de postura foi clara, com ativos de risco globais apresentando uma performance espetacular nos primeiros meses do ano. Até os ativos brasileiros mesmo com as conhecidas incertezas políticas, também surfaram essa onda, embora em magnitude menos acentuada.

Nas últimas semanas, no entanto, os acontecimentos globais voltaram a assombrar os investidores locais. O gatilho foi a declaração por parte dos EUA de que o acordo comercial com a China, que parecia encaminhado, seria adiado em razão de desavenças entre as partes.

O recrudescimento do atrito entre as duas maiores economias do mundo trouxe novamente à tona uma preocupação que parecia superada desde a mudança de discurso por parte dos bancos centrais: o receio de recessão global.

A consequência para mercados de risco foi imediata e negativa, com fuga de recursos para mercados considerados “portos seguros” pelos investidores (como treasuries e o dólar americano, por exemplo). Merece destaque, aliás, as quedas acentuadas no mercado de moedas de países emergentes. Nesse período, países tão diversos como China, Coreia do Sul, Austrália, África do Sul, Colômbia e Chile tiveram suas moedas afetadas negativamente. O real brasileiro não foi exceção e também se desvalorizou no período, apesar de alguns analistas argumentarem que a causa da fraqueza da nossa moeda foi primordialmente doméstica e de natureza política.

O problema está, no entanto, posto: as incertezas decorrentes da piora da relação comercial entre EUA e China vão levar a uma forte desaceleração da economia global, fortalecendo assim ativos considerados como “quase livres de risco”? Ou a atuação dos bancos centrais poderá contrapor uma eventual perda de ritmo dessas economias, favorecendo assim ativos mais arriscados como ações e moedas emergentes?

O ano de 2018 foi um bom exemplo do que pode acontecer se os investidores continuarem fugindo para ativos seguros como o dólar americano, por exemplo. O impacto foi amplo e bem negativo, atingindo não só os mercados acionários globais como também o de crédito e de moedas. Ao contrário, o ano de 2017, marcado pela desvalorização do dólar americano, foi espetacular para ativos de risco globalmente. Muda o ano mas a mensagem dos investidores parece ser a mesma: dólar forte é prejudicial aos mercados de risco globais e aos países emergentes em particular.

É bem verdade que as razões que levaram à valorização do dólar no último mês são bem diferentes daquelas que influenciaram o comportamento da moeda americana no ano passado. Nesse sentido, alguns analistas argumentam que o movimento do corrente ano é menos preocupante pois os bancos centrais já se colocaram disponíveis para contrapor eventuais quedas no ritmo de crescimento de suas economias.

O que o passado recente nos mostra, no entanto, é que não basta que os bancos centrais consigam combater eventuais perdas de dinamismo em suas respectivas economias. É fundamental que o façam de maneira coordenada. É nesse ponto que aparecem os problemas. Nem todos os bancos centrais possuem a mesma capacidade e os mesmos instrumentos para a tarefa.

Se, por um lado, o Fed parece possuir alguma flexibilidade e instrumentos para estimular a economia americana, o mesmo não é válido para os demais blocos econômicos. Particularmente preocupante é a situação na Europa, em que a desaceleração econômica mostra-se mais acentuada. Mesmo na China, que possui alguma capacidade de resposta fiscal aos cenários de desaceleração econômica, o alto endividamento das empresas impõe um grande desafio para que o governo efetivamente consiga realizar um “pouso suave”.

Resta saber, portanto, se esses mesmos bancos centrais serão capazes de coordenar uma desaceleração econômica gradual e, assim, gerar um ambiente econômico marcado por juros ainda muito baixos, crescimento perto do potencial e inflação sob controle.

Esse ainda parece ser o cenário mais provável. Comprometimento por parte das autoridades monetárias certamente não falta. Mas não é uma tarefa trivial. Se bem executada, não resta dúvida que os investidores aplaudirão de pé. Caso contrário, poderemos ver uma repetição do ano de 2018, que foi particularmente difícil para os investidores globais.

Paulo Clini é diretor de investimentos da Western Asset

Fonte: Valor Econômico