Educação financeira chega à pré-escola

Um grupo de crianças entre três e cinco anos vai ser alvo de um projeto de educação financeira de longo prazo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que pela primeira vez vai tratar do tema a partir da primeira infância. A ideia é acompanhar o desenvolvimento desses estudantes ao longo da vida escolar e profissional para verificar o impacto do programa.

O projeto, que inclui temas como integridade e empreendedorismo, vai realizar o chamado “teste do marshmallow”. O experimento, realizado pela primeira vez nos anos 60, é relacionado ao autocontrole, característica considerada fundamental quando se trata de poupar dinheiro.

Um projeto piloto será feito em escolas como a Dom Cipriano Chagas, no Rio de Janeiro. A instituição é financiada pela ONG Providência e atende comunidades da zona sul da cidade. Lá, farão parte do projeto inicialmente 35 crianças.

“Atuar no fortalecimento da capacidade, autocontrole e autoeficácia na primeira infância é algo que vai ajudar não só a ser uma pessoa com maior propensão a poupar, mas também um profissional mais resiliente”, diz o superintendente de proteção e orientação aos investidores da CVM, José Alexandre Vasco.

O teste do marshmallow foi desenvolvido pela primeira vez no final dos anos 1960, pelo psicólogo Walter Mischel, na época professor da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Ele e seus alunos propunham a crianças em idade pré-escolar uma escolha, que envolvia uma guloseima, como um marshmallow.

A criança era deixada sozinha em uma sala, com o doce à frente. Ela tinha a possibilidade de comê-lo imediatamente ou esperar pelo retorno do pesquisador – que ficava ausente por cerca de 20 minutos – e ganhar dois marshmallows, desde que não levantasse da cadeira ou mordesse o docinho. Essas crianças foram observadas ao longo do seu crescimento e a conclusão foi que aquelas capazes de esperar por mais tempo pela possível recompensa apresentaram tendência de ter melhor êxito na vida, com desempenho escolar acima da média, por exemplo.

Na educação financeira, autocontrole é essencial para a realização de objetivos de longo prazo. No livro “O Teste do Marshmallow”, Mischel examina como o tema influencia a jornada da pré-escola para a aposentadoria e prepara o caminho para experiências bem-sucedidas e expectativas positivas. “Entre os 27 anos e os 32 anos, aquelas crianças que haviam conseguido resistir ao teste do marshmallow na pré-escola apresentaram índice de massa corporal mais baixo e autoestima mais elevada, perseguiam os objetivos com mais eficácia e enfrentavam a frustração e o estresse com mais resiliência”, diz o psicólogo no livro.

No projeto da CVM, o objetivo também é acompanhar o desenvolvimento das crianças da escola até pelo menos o ensino médio. A auxiliar da Comissão Especial de Enfrentamento à Corrupção do Conselho Nacional do Ministério Público (CEC/CNMP), Luciana Asper, lembra que esse tipo de projeto é um dos braços da agenda de integridade. “A escola é porta de acesso à família. Buscamos colocar a agenda de integridade em todas as pessoas, e a CVM aparece para ampliar esse trabalho”, diz ela, que atua como parceira convidada.

O projeto será apresentado nesta segunda-feira na Conferência de Ciências Comportamentais e Educação do Investidor. “A nossa expectativa é gigantesca. Com a escola, a criança pode ajudar a transformar a família. Ela pode ensinar o pai a poupar”, diz a gestora da escola Dom Cipriano Chagas, Anna Gabriela Malta.

O colégio Dom Cipriano Chagas já tem um projeto de educação financeira há cerca de um ano. Desde o início de 2018, voluntários do escritório de advocacia BMA orientam crianças de 6 anos a 10 anos sobre o assunto. Os primeiro resultados já começam a ser percebidos, disse Anna Gabriela. “As crianças já começam a entender a diferença entre o dinheiro e o valor das coisas”, afirma a diretora.

Fonte: Valor Econômico