Mais empresas buscam mentiras nos currículos

Antes restrito ao alto escalão e empresas multinacionais, a prática do “background check”, a checagem de informações no currículo e de antecedentes de candidatos a vagas de emprego, vem crescendo no Brasil e hoje é usada em uma variedade maior de cargos, níveis e empresas. Com a ajuda da tecnologia, cruza informações de fontes distintas e incorpora varreduras em redes sociais e na internet.

Segundo empresas que oferecem o serviço, casos recentes como o do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, e da professora de química Joana D’Arc Félix de Sousa, que incluíram no currículo passagens inexistentes pela Universidade Harvard, não são de todo raros, e são facilmente descobertos. “Os exageros acadêmicos, especialmente, têm sido mais comuns ultimamente”, diz Carlos Lopes, diretor da empresa de investigação e gestão de risco Kroll.

Há casos de profissionais que alegam ter terminado cursos que apenas começaram. Lopes diz lembrar de uma situação em que um candidato a um cargo “superestratégico” entregou um diploma falso quando questionado.

O que mais aparece, no entanto, são “exageros de responsabilidade”, quando a descrição de empregos passados feita pelo profissional não bate com as informações fornecidas pela companhia quando os verificadores entram em contato. “O exagero de responsabilidades é mais comum, mas o exagero acadêmico é uma questão mais facilmente comprovada e mais impactante. Quando a pessoa alega que tem um diploma e não tem, é uma mentira descarada, então a empresa provavelmente não vai considerá-la para a vaga”, diz Lopes.

Especialistas da área afirmam que a demanda vem aumentando na medida em que as áreas de compliance ganham espaço dentro das empresas e cresce a preocupação com o risco que fraudes representam para a reputação da companhia, na esteira da Operação Lava-Jato e da Lei Anticorrupção. Na Kroll, Lopes diz que a demanda pelo serviço de ‘background check’ vem crescendo cerca de 20% ao ano desde 2013.

Antes exigência mais comum em multinacionais, que traziam a prática da matriz, ele conta que hoje tem mais clientes locais e que as organizações buscam o serviço para cargos mais variados, e não penas posições executivas. “Temos feito relatórios para diretores, gerentes e até analistas se eles forem de áreas mais sensíveis como os departamentos de compras e de relações institucionais, onde uma relação com fornecedor ou político pode ser um risco”, diz.

Além de entrar em contato com instituições acadêmicas e empresas para verificar as informações do currículo, as varreduras consideram registros públicos sobre a pessoa, participação em litígios ou processos criminais, ações administrativas em órgãos profissionais, o que foi dito sobre a pessoa na mídia, e as publicações do candidato em redes sociais, em especial posts racistas ou homofóbicos. “Nosso foco é identificar riscos, e não a opinião da pessoa”, diz. Muito buscadas pelos clientes, em especial companhias que lidam com o setor público, são conexões políticas ou conflitos de interesse com concorrentes ou fornecedores.

Claudia de Jesus, sócia da Background Brasil, atua com a checagem de antecedentes desde 2001, quando atuava no jurídico de uma multinacional. Ela conta que, quando começou no Brasil, o ‘background check’ ‘se ocupava mais em investigar ocorrências na Justiça. “Com o passar do tempo percebi que a preocupação passou a ser de currículo mesmo, com a verificação educacional e de antigos empregadores”, diz. A partir de 2015, ela viu um aumento significativo na demanda pelo serviço.

No seu trabalho, feito em grande parte por meio de contato telefônico com instituições de ensino e empresas, ela checa o passado de candidatos de todos os níveis, até estagiários. Se antes a checagem era apenas das informações fornecidas pelo candidato durante o processo seletivo, hoje ela verifica também o que consta na Plataforma Lattes e no LinkedIn. “Ali a criatividade rola solta”, diz. Quando há inconsistências, avisa a empresa.

Os especialistas dizem que não há obrigação de a companhia avisar o candidato que ele passará por uma verificação desse tipo, mas tanto Lopes quanto Claudia dizem preferir quando isso acontece. “A transparência ajuda os desavisados”, diz Claudia. Para Lopes, o ato de avisar já leva a mais abertura por parte dos candidatos no caso de processos judiciais, por exemplo.

A tecnologia tem permitido que esse trabalho seja mais rápido e sutil, no entanto. A empresa de mineração de dados upLexis usa mais de 500 fontes de informação para criar sistemas onde as empresas fazem consultas de risco em processos de compras, contratação de fornecedores e recrutamento. Segundo Eduardo Tardelli, CEO da upLexis, os serviços vêm sendo mais demandados desde que a Lei Anticorrupção ampliou a responsabilização de empresas quando fornecedores se envolvem em irregularidades.

No caso dos funcionários, as informações consultadas automaticamente pelo sistema incluem processos nas Justiça, redes sociais, participação em empresas e quem são seus sócios, e comportamento de crédito com base em informações fornecidas por empresas como a Serasa. “A gente vai atrás do que está digitalizado e do que é público ou acessível. Temos um aplicativo que gera um dossiê com indicadores sobre a pessoa”, afirma Tardelli.

Por ser um serviço rápido e digital, ele diz que é muito comum ser usado por empresas de terceirização, como de segurança e limpeza, bem como aplicativos de serviços. “Nesse universo digital a cada instante as pessoas estão deixando mais rastros e mais informações disponíveis, e isso pode ser usado a favor ou contra você”, diz.

Fonte: Valor Econômico