O papel do consumo na recuperação

Como já tem sido usual na última década, os indicadores que medem a evolução da atividade econômica brasileira seguem frustrando as expectativas. Tomando como referência a pesquisa Focus do Banco Central, desde 2010 as medianas da expectativa de crescimento para o PIB anual chegam ao fim do primeiro semestre em patamares inferiores ao projetado no início do ano. Quando muitos esperavam que 2019 reverteria este quadro, houve nova deterioração nas expectativas de crescimento. Se no início de janeiro, a mediana esperada era de 2,53%, finda a primeira metade, a taxa já se encontra em 0,85%, uma retração de 66,4%.

Para entendermos os motivos para esta difícil situação em que nos encontramos, cabe inicialmente aprofundarmos no comportamento dos componentes do PIB. De acordo com as séries mensais do Monitor do PIB elaborada pela FGV/RJ, cujo última leitura refere-se ao mês de abril, não fosse o forte ritmo de crescimento das exportações de produtos agropecuários e, principalmente, da extrativa mineral, a economia brasileira provavelmente já teria retornado a uma dinâmica recessiva.

No período acumulado de janeiro a abril, o volume exportado dos bens agropecuários cresceu 5,7% e da extrativa, 23,5%, sempre na comparação com o mesmo período de 2018. Dessa forma, a despeito das fortes retrações nas vendas externas dos bens de consumo duráveis (-32,5%) e bens de capital (-12,6%), o volume agregado das exportações brasileiras registrou expansão de 4,2%.

No que diz respeito aos componentes da demanda interna (consumo e investimento), os desempenhos mostram-se muito inferiores ao das exportações. No caso do consumo das famílias, a expansão verificada até abril foi de 1,7%, graças ao crescimento da procura pelos bens duráveis, que registraram crescimento de 5,1%. Já os bens semi e não duráveis, que representam a maior parcela do consumo por bens industriais, cresceram apenas 0,7% e 0,8%, respectivamente. Os investimentos agregados, por sua vez, apresentaram desempenho ainda pior, com expansão acumulada até abril de apenas 1,1%.

Muito embora os desempenhos dos componentes de demanda, com raras exceções, ainda sejam decepcionantes, a frustração torna-se muito maior quando se verifica que o poder de transformação desta demanda em geração efetiva de PIB e renda é extremamente limitado. Neste mesmo período de análise, o PIB brasileiro permaneceu praticamente estagnado ao longo do primeiro quadrimestre do ano, com expansão de 0,1%.

O núcleo fundamental da explicação está nas características da estrutura produtiva brasileira e nas limitações de um modelo de crescimento calcado na produção de bens primários voltados à exportação. Não se trata apenas da escala das exportações das commodities ser pequena comparada à produção agregada, mas principalmente do poder de impulsionar crescimento econômico a cada unidade monetária produzida. Com base na última Matriz Insumo Produto (MIP), referente a 2015, é possível quantificar o valor de produção gerado a cada R$ 1 exportado pelas atividades. No caso da produção agrícola, a exportação de R$ 1 gera (direta e indiretamente) uma produção agregada de R$ 1,72. No caso da pecuária, este valor é um pouco maior, de R$ 1,80. No caso da exportação de petróleo e de minério, R$ 1 exportado gera uma produção final de R$ 1,71 e R$ 1,79, respectivamente.

O efeito multiplicador da construção é inferior ao das atividades vinculadas ao consumo de massa

Outra característica importante do modelo que vem se configurando diz respeito ao crescimento do conteúdo importado de máquinas, equipamentos e insumos requeridos nos processos produtivos, substituindo produção nacional, em particular nos referidos setores primários-exportadores. Na agropecuária, apenas de janeiro a maio deste, segundo o Indicador de Comércio Exterior (Icomex), as importações de bens intermediários e de capital cresceu, em quantum, 26,6% e 31,3%, respectivamente. No caso da extrativa, embora o Icomex não disponibilize o dado específico para ela, sabemos que em função do relaxamento das políticas de conteúdo local no setor de petróleo e gás, as importações também cresceram de forma significativa.

Portanto, é razoável supor que a agropecuária e extrativa mineral reduziram ainda mais seu poder de arraste das demais atividades. No entanto, ainda que desconsideremos estes efeitos, a própria MIP de 2015 nos dá indicações de que em termos relativos as atividades que “lideram” a retomada da economia brasileira apresentam um reduzido poder de impulsionar crescimento.

Os dados apontam que a sustentação de uma trajetória de recuperação econômica dependerá da reativação do consumo de massa, no qual predominam os bens industriais semi e não duráveis. Não apenas a escala destes segmentos é muito maior e os ciclos de vida dos produtos são menores quando comparados aos bens duráveis, como os efeitos multiplicadores sobre a produção agregada calculados com base na MIP revelam um expressivo poder do consumo de massa de alavancar crescimento. É o caso, por exemplo, das atividades produtoras de carnes, açúcar, demais alimentos, bebidas, calçados e produtos de higiene pessoal/cosméticos. O gráfico traz os efeitos multiplicadores totais sobre a produção da variação de R$ 1 no consumo direcionado a estas atividades, muito superiores aos efeitos já mencionados das atividades primário-exportadoras.

Em geral, dá-se maior destaque aos investimentos em infraestrutura e seu papel como impulsionador da recuperação. Sem dúvida, representam importantes estímulos de demanda para reativar o tão combalido setor de construção civil. No entanto, vale ressaltar que o próprio efeito multiplicador da construção (R$ 1,80) é inferior ao das atividades vinculadas ao consumo de massa.

Uma agenda governamental de retomada do crescimento precisa incorporar a preocupação com o consumo de massa. A reativação deste gasto é condição necessária para uma recuperação mais consistente do PIB e da renda agregada. Há diversas iniciativas que podem contribuir para este movimento, mas aproveitando o contexto de debates sobre as reformas, gostaria apenas de mencionar que uma reforma tributária que busque aliviar os impostos sobre itens do consumo de massa pode ser um dos instrumentos que favoreçam a retomada.

Fonte: Valor Econômico