Os adultos e as oportunidades perdidas

Na mesa dos adultos, Estados Unidos e China discutem o futuro do domínio geopolítico global dos próximos 30 anos. Disfarçado em uma guerra sobre tarifas, os verdadeiros interesses a serem discutidos são domínio de tecnologia, propriedade intelectual e influência global.

Se entendermos que esta é, na verdade, a natureza da chamada guerra comercial, ou “trade war”, fica mais claro compreender que esta não será uma disputa de dez semanas ou de dez meses, e sim de dez ou vinte anos.

Dada a imprevisibilidade do governo americano nas negociações e o ponto de partida frágil do governo chinês, a opção de Beijing tem sido de evitar o confronto. A estratégia chinesa parece focar em reagir a ações americanas por meio de mais investimento em infraestrutura e evitar uma forte desaceleração do mercado de crédito, compensando potencial perda do PIB na disputa com os EUA.

Por enquanto, não parece que a moeda será usada como uma ferramenta para contrapor perdas comerciais. Beijing sabe que o uso da moeda pode gerar mais retaliações americanas e inflação doméstica.

Do outro lado do globo, o cálculo americano não parece muito claro. A medida em que o governo de Donald Trump aumentar a base de produtos tarifados, mais se entra em bens de consumo com impacto direto na inflação doméstica, em uma economia em estágio avançado no ciclo e com pleno emprego. A condução da política monetária será ainda mais desafiadora.

Do ponto de vista estratégico, a motivação americana parece ser a intenção de conter o avanço do domínio chinês em tecnologia, financeira em particular, mas também aeroespacial, além de conter a influência de Beijing no resto do mundo. Ou seja, este “trade war” tem pouco a ver com comércio.

Este é o equilíbrio fino a ser discutido nos próximos dez anos pelo menos. Alguns momentos serão mais tensos, outros mais amistosos, mas esta disputa de poder é inerente à ordem global e existe desde que o mundo é mundo. Enquanto em outros momentos discutia-se a divisão de continentes, hoje discutimos quem chegará a Marte primeiro, quem dominará meios de pagamentos mobile, qual tecnologia de carro elétrico será a vencedora, 5G, internet das coisas, e a propriedade intelectual em volta disto tudo.

E enquanto os adultos discutem o futuro, o Brasil discute apenas como sobreviver o dia de hoje. Com alguma frequência a história apresenta momentos transformacionais nos quais os personagens e as sociedades que percebem a importância do momento conseguem capturar a oportunidade e, de fato, se reinventar e se reposicionar no cenário global.

Parece que vivemos em um desses momentos dada a velocidade de transformação de tanta coisa ao pode ser mesmo tempo.

Mas, no Brasil, nos enfiamos em uma crise política e econômica, com origem em uma crise de valores, que nos hipnotiza. Este momento está sugando muita energia do país, limitando a nossa capacidade criativa, que roda a uma fração do seu potencial.

Os preços dos ativos brasileiros hoje refletem este momento. Com uma eleição até pouco bastante aberta, o grande consenso é que parece difícil se ter uma grande opinião sobre o futuro. Com um desafio fiscal enorme pela frente, o próximo presidente precisará do apoio do Congresso para passar medidas que nos levem de volta ao rumo da sustentabilidade financeira.

Na falta de visibilidade, o consenso entre a grande maioria dos investidores domésticos, mas estrangeiros em particular, é que hoje existe pouco prêmio para os riscos associados. Com sorte, elegeremos um presidente que promoverá as reformas necessárias e entraremos em um círculo virtuoso aumentando a visibilidade do horizonte de investimento.

Depois do ciclo econômico de 2012 a 2016, as empresas ajustaram seus custos, diminuíram custo financeiro, muitas ajustaram suas governanças em um mundo pós-Lava-Jato e evidenciamos um certo darwinismo em que os melhores sobreviveram e saíram mais fortes no meio de tanta adversidade.

Se imaginarmos onde estamos e para onde podemos ir, com um pouco de sorte, as oportunidades de investimentos parecem enormes. E estarão diretamente associadas a recuperarmos as oportunidades perdidas nesse mundo dinâmico.

Fonte: Valor Econômico