Pandemia traz lição sobre escassez de bens e recursos

A pandemia é um ensaio de como as sociedades responderão às mudanças climáticas e um meio ambiente deteriorado. O esgotamento dos recursos naturais do planeta cria uma escassez que o tempo não vai aliviar

Para muitas economias ricas a pandemia proporcionou um curso intensivo sobre uma experiência desconhecida: a falta de bens básicos. A globalização acostumou os consumidores dos países ricos a ter bens baratos e abundantes, frequentemente produzidos nos países mais pobres. A covid-19 provocou mudanças súbitas nos padrões de consumo e impediu bens de percorrer o mundo facilmente. O resultado foi a escassez. 

Inicialmente, os governos correram para assegurar equipamentos de proteção pessoal e reorganizar fábricas para produzir ventiladores. Muitos bens de consumo essenciais rapidamente desapareceram, enquanto os consumidores esvaziavam as prateleiras dos supermercados e trocavam os restaurantes pelas refeições em casa. Mais recentemente, o crescimento das compras online levou a uma falta de papelão no Reino Unido; o preço da tonelada subiu dez vezes. 

No mundo, a ruptura levou a portos abarrotados e atrasos nos embarques após uma acentuada reversão da queda inicial no comércio internacional, graças em parte à demanda por distrações eletrônicas pelos entediados com os “lockdowns”. Entretanto, contêineres ficaram ilhados na parte errada do globo e os custos de transporte aumentaram. 

O aumento da demanda por eletrônicos também contribuiu para uma falta de semicondutores que, por sua vez, forçou fábricas de automóveis a suspender a produção. O frio extremo no Texas agravou o problema nos Estados Unidos; a produção de suas refinarias de petróleo é usada na fabricação de componentes plásticos de automóveis, entre outros bens. 

A escassez pode levar a comportamentos que, em retrospecto, reconhecemos como irracionais. No começo dos lockdowns, rolos de papel higiênico e massas alimentícias secas sumiram das prateleiras dos supermercados, graças a um pânico equivocado. Mais recentemente, o otimismo inicial com a descoberta de vacinas transformou-se em amargas disputas para a obtenção de estoques dessas commodities raras. Segundo economistas comportamentais, a experiência da escassez, seja ela de bens ou de tempo, pode exigir demais de nossas mentes e nos impedir de tomar decisões que são de nossos interesses de longo prazo. 

Mas há uma diferença entre gargalos e esgotamento. A maioria dos problemas que os países ricos enfrenta é temporária. Em algum momento, novas fábricas de medicamentos entrarão em operação e produzirão mais vacinas; as refinarias do Texas serão reabertas, amenizando o problema da falta de componentes; e os contêineres voltarão aos portos certos. O problema não é como produzir o suficiente por si só, e sim produzir o suficiente para satisfazer toda a demanda no momento. 

Uma preocupação maior é que a pandemia é um ensaio de como as sociedades responderão às mudanças climáticas e um meio ambiente deteriorado. O esgotamento dos recursos naturais do planeta cria uma escassez que o tempo não vai aliviar: quando uma floresta tropical ou espécies ameaçadas se vão, elas se vão para sempre. 

Isso poderá incluir a falta de commodities básicas sobre a maioria das quais nunca pensamos. A Organização das Nações Unidas (ONU) está alertando que o mundo está ficando sem areia, que é vital na construção. 

A urbanização na África e Ásia está esgotando as reservas em pedreiras, litorais e leitos de rios mais rapidamente do que elas podem ser repostas; a areia abundante dos desertos, erodida pelo vento, é pequena demais e redonda demais para ser usada na construção. 

Somente a água é mais usada na economia mundial do que a areia. E aqui também a escassez já está sendo sentida – das interrupções no comércio na Europa, causadas pelo baixo nível do rio Reno em 2018, à seca deste ano em Taiwan, a pior no país em décadas, que forçou suas fábricas de semicondutores a reduzir o consumo de água. De todas as lições ensinadas pela pandemia, talvez a mais importante seja o quanto subestimamos isso. Há muitas outras coisas das quais também sentiremos falta se elas desaparecerem.