{"id":3090,"date":"2016-02-15T06:32:07","date_gmt":"2016-02-15T09:32:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.campal.com.br\/site\/app\/webroot\/blog\/?p=3090"},"modified":"2016-02-15T06:32:07","modified_gmt":"2016-02-15T09:32:07","slug":"dez-grandes-derrotados-da-nossa-historia-ou-como-o-brasil-poderia-ter-dado-certo-mas-nao-deu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.campal.com.br\/site\/dez-grandes-derrotados-da-nossa-historia-ou-como-o-brasil-poderia-ter-dado-certo-mas-nao-deu\/","title":{"rendered":"Dez grandes derrotados da nossa hist\u00f3ria (ou, como o Brasil poderia ter dado certo, mas n\u00e3o deu)"},"content":{"rendered":"<div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" alt=\"\" src=\"http:\/\/spotniks.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/capa3.jpg\" width=\"420\" height=\"252\" \/><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>**Paulo Roberto de Almeida \u00e9\u00a0Doutor em Ci\u00eancias Sociais pela Universidade de Bruxelas.\u00a0Foi ministro-conselheiro na Embaixada do Brasil em Washington (1999-2003). Trabalhou entre 2003 e 2007 como Assessor Especial no N\u00facleo de Assuntos Estrat\u00e9gicos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil, j\u00e1 disse algu\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 para principiantes. Vamos admitir que a frase expresse a realidade, ainda que ela seja uma mera banalidade conceitual. A verdade \u00e9 que nenhuma sociedade urbanizada, industrializada, conectada, ou seja, complexa, como s\u00e3o quase todas as na\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas, \u00e9 de f\u00e1cil manejo para amadores da vida pol\u00edtica ou para iniciantes no campo da gest\u00e3o econ\u00f4mica. N\u00e3o deveria haver nada de surpreendente, portanto, em que o Brasil, de fato, n\u00e3o seja para principiantes, como dito nesse slogan t\u00e3o folcloricamente simp\u00e1tico quanto sociologicamente in\u00f3cuo.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas aten\u00e7\u00e3o: a frase \u00e9, sim, relevante pelo lado do seu exato contr\u00e1rio. O mais surpreendente, no caso do Brasil, est\u00e1 em que o pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 de r\u00e1pida explica\u00e7\u00e3o ou de f\u00e1cil interpreta\u00e7\u00e3o nem mesmo para pensadores distinguidos e intelectuais de primeira linha (eles o s\u00e3o, de verdade?). Ele tampouco parece ser de simples manejo mesmo para estadistas da velha guarda (n\u00f3s os temos?), para pol\u00edticos experientes (parece que ainda existem), sem esquecer os empres\u00e1rios inovadores (quantos s\u00e3o, algu\u00e9m sabe dizer?) ou para economistas sensatos (seria uma esp\u00e9cie rara?). O Brasil j\u00e1 destruiu mais de uma reputa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, como continua desafiando as melhores voca\u00e7\u00f5es de \u201cexplicadores sociais\u201d (inclusive brasilianistas), com o seu jeito sui-generis de ser. Existe, por exemplo, alguma explica\u00e7\u00e3o sensata para o fato de que \u201co pa\u00eds do futuro\u201d, o \u201cgigante inzoneiro\u201d, a terra dos recursos infinitos, seja ainda uma sociedade desigual, ricamente dotada pela natureza, mas com muitos pobres, milh\u00f5es deles, uma na\u00e7\u00e3o at\u00e9 materialmente avan\u00e7ada, mas (aparentemente, pelo menos) mentalmente atrasada? O que \u00e9 que nos ret\u00e9m na rota do desenvolvimento social integrado? Quais s\u00e3o os formid\u00e1veis obst\u00e1culos, quantas e quais s\u00e3o as barreiras intranspon\u00edveis?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o foram poucos os esp\u00edritos corajosos que tentaram vencer essas dificuldades e nos colocar num itiner\u00e1rio de progresso sustentado. A maior parte acabou derrotada por um conjunto variado de circunst\u00e2ncias cuja identifica\u00e7\u00e3o exata requereria um batalh\u00e3o de soci\u00f3logos, dos melhores. Vamos repassar, ainda que brevemente, o itiner\u00e1rio de dez grandes personalidades que, em momentos decisivos da hist\u00f3ria do Brasil, viram seus projetos e propostas de reformas ou de melhorias para o pa\u00eds totalmente frustrados em fun\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es ambientes, por for\u00e7a da oposi\u00e7\u00e3o de outros personagens ou de grupos poderosos, ou pelo fato de que eles mesmos n\u00e3o souberam, ou n\u00e3o puderam, obter apoios suficientes para que suas propostas de pol\u00edticas p\u00fablicas fossem, em primeiro lugar, aceitas por outros dirigentes, ou pela opini\u00e3o p\u00fablica, depois seguidas pela coaliz\u00e3o dominante a cada momento e, finalmente, implementadas na forma por eles concebida inicialmente. A maior parte desses homens n\u00e3o foi sequer consolada, em vida, por aquele famoso d\u00edstico de bandeira estadual: \u201cainda que tardia\u201d.<\/p>\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><strong>1) HIP\u00d3LITO JOS\u00c9 DA COSTA<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" alt=\"HipolitoJoseCostaRetrato\" src=\"http:\/\/spotniks.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/HipolitoJoseCostaRetrato.jpg\" width=\"1025\" height=\"752\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascido na Col\u00f4nia do Sacramento, criado em Rio Grande, esp\u00edrito iluminista, liberal econ\u00f4mico, assessor, durante algum tempo, do grande estadista portugu\u00eas da passagem do s\u00e9culo 19, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, o conde de Linhares, para quem investigou as inova\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e melhoramentos agr\u00edcolas da jovem Rep\u00fablica americana nos anos finais do s\u00e9culo 18, e por quem foi enviado \u00e0 Inglaterra para adquirir equipamentos gr\u00e1ficos, para modernizar a imprensa do Reino, e onde se tornou ma\u00e7om, foi preso e torturado pela Inquisi\u00e7\u00e3o ao retornar a Portugal, tendo conseguido fugir ap\u00f3s alguns anos de c\u00e1rcere. Estabelecido na Inglaterra desde ent\u00e3o, Hip\u00f3lito deu in\u00edcio ao primeiro jornal independente brasileiro, o\u00a0<em>Correio Braziliense<\/em>, que editou sozinho em Londres desde a transmigra\u00e7\u00e3o da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, at\u00e9 que fosse confirmada a independ\u00eancia e a separa\u00e7\u00e3o do, at\u00e9 ent\u00e3o, Reino Unido, no final de 1822. Nomeado c\u00f4nsul do Brasil em Londres, por Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, Hip\u00f3lito ainda teve tempo de enviar-lhe, em fevereiro de 1823, um of\u00edcio propondo reformas nos correios, nos transportes e na coloniza\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o para tomar posse do cargo para o qual estava preparado como nenhum outro brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu\u00a0<em>Correio Braziliense<\/em>\u00a0forneceu, durante exatos quatorze anos e sete meses ininterruptos, material de informa\u00e7\u00e3o, de reflex\u00e3o e de cr\u00edticas a todos os dirigentes portugueses (que o liam \u00e0 sorrelfa) e aos brasileiros ilustrados, constituindo o maior reposit\u00f3rio de dados e an\u00e1lises fi\u00e1veis sobre o estado do reino de Portugal, sobre a situa\u00e7\u00e3o da Europa napole\u00f4nica e p\u00f3s-napole\u00f4nica, sobre as Am\u00e9ricas em geral e sobre o Brasil em particular. Seu \u201carmaz\u00e9m liter\u00e1rio\u201d constitui o mais completo manual de pol\u00edticas p\u00fablicas e de economia pol\u00edtica \u2013 no sentido de estadismo para a prosperidade dos povos, como a definia Adam Smith \u2013 cujo grande objetivo era o de ajudar o Brasil e os \u201cbrazilienses\u201d a enriquecer rapidamente, como ocorria ent\u00e3o na Inglaterra. Muitos ministros do reino, em Portugal e no Brasil, concordavam com ele, mas \u00e0s escondidas, pois n\u00e3o o podiam revelar, ainda que um ou outro mais ousado tentasse convencer o pr\u00edncipe regente, depois D. Jo\u00e3o VI, do acertado daqueles cr\u00edticas e propostas de pol\u00edticas, inclusive no que se referia aos tratados desiguais com a pr\u00f3pria Inglaterra. Infelizmente seus conselhos foram raramente seguidos e ele veio a morrer antes de poder servir de forma mais efetiva ao pa\u00eds que era o seu, mas que tinha abandonado ainda muito jovem para nunca mais voltar.<\/p>\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><strong>2) JOS\u00c9 BONIF\u00c1CIO DE ANDRADA E SILVA<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" alt=\"jos\u00e9 bonifacio\" src=\"http:\/\/spotniks.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/jos%C3%A9-bonifacio.jpg\" width=\"1146\" height=\"678\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As mesmas ideias defendidas por Hip\u00f3lito, de monarquia constitucional e de fim da escravid\u00e3o, foram esposadas por Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, grande intelectual nascido em Santos, SP, homem de ci\u00eancia e de grandes luzes, membro de diversas academias europeias, combatente contra as tropas napole\u00f4nicas em Portugal, antes de retornar ao Brasil para servir ao Reino Unido e se converter no verdadeiro art\u00edfice da independ\u00eancia do Brasil. Proclamada esta, ele pretendia, j\u00e1 na Assembleia Constituinte, libertar o Brasil da m\u00e1cula do tr\u00e1fico escravo e, assim que poss\u00edvel, da n\u00f3doa da escravid\u00e3o, conseguindo bra\u00e7os para a lavoura e para a forma\u00e7\u00e3o de uma s\u00f3lida economia agr\u00edcola entre camponeses imigrados europeus. Como Hip\u00f3lito, e como tantos outros abolicionistas, Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio foi derrotado pela coaliz\u00e3o de mercadores de escravos e de grandes propriet\u00e1rios de terras, abandonado, ali\u00e1s, pelo pr\u00f3prio Imperador, que aproveitou-se do recrudescer das turbul\u00eancias pol\u00edticas na Assembleia Constituinte e das divis\u00f5es pol\u00edticas entre os ma\u00e7ons para decretar o encerramento do breve exerc\u00edcio de ordenamento constitucional, \u201ccassar\u201d os seus membros e exilar ou prender toda a fam\u00edlia dos Andradas. Bonif\u00e1cio foi mais uma vez para a Europa, e s\u00f3 retornou ao Brasil para ser preceptor, por breve tempo, do menino Pedro de Alc\u00e2ntara, mas j\u00e1 sem condi\u00e7\u00f5es de influenciar a pol\u00edtica no per\u00edodo regencial. Foi um dos grandes derrotados de nossa lista de estadistas-idealistas.<\/p>\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><strong>3) IRINEU EVANGELISTA DE SOUZA<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"barao_de_maua_s.a.sinson\" src=\"http:\/\/spotniks.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/barao_de_maua_s.a.sinson.jpg\" width=\"1025\" height=\"649\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ga\u00facho de nascimento e\u00a0<em>self-made man<\/em>\u00a0s\u00f3 adquiriu o t\u00edtulo nobili\u00e1rquico de Bar\u00e3o de Mau\u00e1 (depois Visconde, em 1875) na data da inaugura\u00e7\u00e3o, em 1854, do primeiro trecho da ferrovia Rio-Petr\u00f3polis, entre o porto de Mau\u00e1, na baia da Guanabara, e o p\u00e9 da serra de Petr\u00f3polis. Antes disso ele j\u00e1 tinha amealhado fortuna com seus empreendimentos industriais (sobretudo estaleiros) e comerciais (em especial seus bancos, no Brasil e em diversas capitais estrangeiras). Homem possuidor do mesmo esp\u00edrito empreendedor e liberal de seus tutores ingleses (primeiro numa casa de importa\u00e7\u00e3o no Rio, depois mediante viagem \u00e0 Inglaterra, em 1840), ele enfrentou in\u00fameras dificuldades num pa\u00eds escravocrata e caracterizado pela m\u00e3o pesada do Estado em todo e qualquer setor da economia (o governo tinha de autorizar qualquer novo empreendimento que ele desejasse fazer), e teve v\u00e1rios atritos com ministros de sucessivos gabinetes do Segundo Imp\u00e9rio; essas desaven\u00e7as o levaram \u00e0 ruina comercial e financeira, e obstaram a que suas ideias progressistas pudessem ser reconhecidas como v\u00e1lidas e implementadas num pa\u00eds em que o status de senhor de escravos ainda era sinal de distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O historiador Nathaniel Leff, heterodoxo entre os int\u00e9rpretes de nossa hist\u00f3ria econ\u00f4mica, afirma que o atraso do Brasil n\u00e3o se situa tanto na col\u00f4nia, como afirmam v\u00e1rios historiadores consagrados, mesmo os da vertente marxista, mas precisamente no per\u00edodo do Segundo Imp\u00e9rio, quando o Brasil perde a oportunidade de implementar as reformas preconizadas por Mau\u00e1, seja no terreno da for\u00e7a-de-trabalho, seja na pol\u00edtica monet\u00e1ria, ou no ambiente de neg\u00f3cios e no da infraestrutura. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma d\u00favida que, ao final do Imp\u00e9rio, o Brasil teria sido um pa\u00eds muito diferente se as ideias (n\u00e3o s\u00f3 econ\u00f4micas) de Mau\u00e1 tivessem sido implementadas como pol\u00edticas p\u00fablicas. Ele foi, provavelmente, o primeiro empres\u00e1rio derrotado de nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><strong>4) JOAQUIM NABUCO<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"joaquim\" src=\"http:\/\/spotniks.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/joaquim.jpg\" width=\"1025\" height=\"737\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201caristocrata\u201d da zona da mata de Pernambuco \u00e9 mais um derrotado de nossa lista, n\u00e3o exatamente enquanto publicista \u2013 terreno no qual ele foi brilhante \u2013 ou como diplomata do Imp\u00e9rio e da Rep\u00fablica, mas enquanto abolicionista, a despeito de suas ra\u00edzes nos engenhos de a\u00e7\u00facar do Nordeste. Intelectual\u00a0<em>blas\u00e9<\/em>, ele bateu-se com denodo pela causa da emancipa\u00e7\u00e3o, e seu livro sobre o abolicionismo (publicado em Londres em 1883) foi decisivo na intensifica\u00e7\u00e3o da campanha, nessa mesma d\u00e9cada. Mas ele j\u00e1 tinha sido derrotado antes, pois que n\u00e3o conseguiu reeleger-se para sua primeira cadeira de deputado, conquistada em 1878, assim como viu frustrada sua campanha pela laiciza\u00e7\u00e3o do Estado Imperial, que tinha a religi\u00e3o cat\u00f3lica como oficial. Mesmo quando da aboli\u00e7\u00e3o, por decreto imperial, suas propostas para que a emancipa\u00e7\u00e3o dos escravos fosse acompanhada de um grande programa de reforma agr\u00e1ria e da universaliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, compuls\u00f3ria e gratuita, com vistas \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o educacional de milh\u00f5es de brasileiros pobres, e n\u00e3o apenas dos negros libertos, jamais foram seriamente consideradas pela Rep\u00fablica olig\u00e1rquica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele afastou-se da pol\u00edtica, como monarquista que era, e dedicou-se aos livros e \u00e0 hist\u00f3ria. S\u00f3 retornou \u00e0 vida p\u00fablica para novamente dedicar-se \u00e0 diplomacia, n\u00e3o para defender o regime, mas para servir ao pa\u00eds. O retorno lhe deu ainda mais desgosto, no caso da arbitragem italiana sobre a quest\u00e3o da Guiana, fronteira com a col\u00f4nia brit\u00e2nica: a Gr\u00e3-Bretanha abocanhou quase 50% a mais do territ\u00f3rio disputado do que foi concedido ao Brasil, nascendo a\u00ed seu acentuado monroismo, ou americanismo, ao considerar que das pot\u00eancias europeias o Brasil n\u00e3o deveria esperar nada. Do nosso ponto de vista, entretanto, o Nabuco \u201cderrotado\u201d que interessa registrar \u00e9 o das nunca implementadas propostas de reforma agr\u00e1ria e de educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica em favor de negros libertos e dos brancos pobres, na verdade para todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil republicano, desde o in\u00edcio, e provavelmente at\u00e9 hoje, continua a pagar muito caro pela aus\u00eancia de medidas desse tipo, para elevar a capacidade produtiva do seu povo. A reforma agr\u00e1ria, na verdade, na pr\u00e1tica se tornou in\u00f3cua pela moderniza\u00e7\u00e3o capitalista da economia rural, mas no campo da educa\u00e7\u00e3o continuamos a exibir atrasos, se n\u00e3o quantitativamente (a taxa de escolariza\u00e7\u00e3o, no in\u00edcio do prim\u00e1rio, alcan\u00e7ou, por fim, a dos pa\u00edses avan\u00e7ados, mas 150 anos depois), certamente em qualidade do ensino.<\/p>\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><strong>5) RUI BARBOSA<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"rui barbosa\" src=\"http:\/\/spotniks.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/rui-barbosa.jpg\" width=\"1025\" height=\"839\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conselheiro do Imp\u00e9rio, primeiro ministro da Fazenda do novo regime, no governo provis\u00f3rio de Deodoro, quando empreendeu algumas boas reformas e outras menos boas, o homem mais inteligente do Brasil (segundo os baianos), foi, antes de tudo, um pensador, um doutrin\u00e1rio e um publicista (e um dos mais prol\u00edficos do Brasil, que nunca publicou um livro sequer, mas que tem obras completas em dezenas de volumes). Ele \u00e9 usualmente definido como um pol\u00edmata, pois suas atividades e escritos abrangiam os mais diversos dom\u00ednios do conhecimento humano, com especial predile\u00e7\u00e3o pelo direito. Logrou sucesso em muitos dos empreendimentos que lhe foram oferecidos ou para os quais ele se voluntariou, em virtude de seus vastos conhecimentos jur\u00eddicos; voltou da Segunda Confer\u00eancia Internacional da Paz da Haia, em 1907, como um her\u00f3i, o \u201c\u00c1guia de Haia\u201d, como exageradamente seus conterr\u00e2neos chamaram-no.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tamb\u00e9m acumulou v\u00e1rios insucessos, entre eles a mal concebida reforma banc\u00e1ria do in\u00edcio da Rep\u00fablica, que acabou resultando numa violenta especula\u00e7\u00e3o, o chamado Encilhamento. Op\u00f4s-se a Rio Branco na compra do Acre \u00e0 Bol\u00edvia, e saiu ruidosamente da delega\u00e7\u00e3o negociadora. Sua maior derrota, por\u00e9m, n\u00e3o para ele, mas para o Brasil, foi ter perdido o pleito presidencial de 1910 para o Marechal Hermes da Fonseca, militarista como seria de se esperar, mas sobretudo prepotente, mandando submeter a golpes de canh\u00e3o os governadores recalcitrantes dos estados que n\u00e3o o obedeciam. Por isso mesmo, o chanceler Rio Branco, angustiado, pensou em se demitir do seu cargo, sucessivamente renovado em quatro governos: coitado, morreu logo ap\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A derrota para Hermes da Fonseca foi uma derrota para o Brasil, no sentido em que representou a consolida\u00e7\u00e3o do arb\u00edtrio como norma de governo, um golpe de Estado permanente contra v\u00e1rios princ\u00edpios constitucionais, a ofensa aos advers\u00e1rios pol\u00edticos (considerados inimigos) como coisa corriqueira, o despotismo do Executivo sobre os demais poderes. Rui se exasperava em face do desprezo que o governo exibia contra os mais comezinhos valores da democracia, entre eles as liberdades individuais e o pleno vigor do Estado de direito. Seus artigos, confer\u00eancias e palestras dos \u00faltimos anos revelam justamente sua revolta contra o desrespeito demonstrado pela maior parte dos pol\u00edticos \u2013 e dos militares \u2013 \u00e0s normas mais elementares do sistema democr\u00e1tico. Como seu amigo Nabuco, ele faria um excelente ministro \u2013 talvez at\u00e9 primeiro \u2013 de um sistema parlamentar ao estilo ingl\u00eas (se poss\u00edvel de uma monarquia constitucional, pois a despeito do seu republicanismo, Rui, a exemplo de Oliveira Lima, se decepcionou rapidamente com aquela rep\u00fablica), ou de um governo congressual ao estilo americano, como preconizado pelo professor de Princeton Woodrow Wilson, mais tarde presidente. Como os anteriores, Rui tamb\u00e9m foi um derrotado, n\u00e3o apenas nos seus princ\u00edpios e convic\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m em suas tentativas pr\u00e1ticas de democratizar plenamente e de enquadrar o Brasil num Estado de direito efetivo.<\/p>\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><strong>6) MONTEIRO LOBATO<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"monteiro_lobato_-_wikimedia_commons_0\" src=\"http:\/\/spotniks.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/monteiro_lobato_-_wikimedia_commons_0.jpg\" width=\"1025\" height=\"772\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filho de fazendeiros do Vale do Para\u00edba se espantou desde cedo com a inacredit\u00e1vel mis\u00e9ria dos caboclos do interior, que ele imortalizou na figura emblem\u00e1tica do Jeca Tatu. Ele constatou as condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias abomin\u00e1veis dos matutos do interior e, sobretudo, a ignor\u00e2ncia abismal desses homens que sequer tinham consci\u00eancia de sua condi\u00e7\u00e3o ou da exist\u00eancia de um pa\u00eds chamado Brasil. Seus muitos artigos de imprensa, sua atividade de editor, seus di\u00e1logos imagin\u00e1rios sobre nossos problemas com um ingl\u00eas da Tijuca \u2013\u00a0<em>Mister Slang e o Brasil<\/em>\u00a0\u2013, todos eles batem na mesma tecla: o Brasil \u00e9 um pa\u00eds profundamente atrasado, t\u00e3o arcaico a ponto de ser derrotado pelas sa\u00favas e por endemias eternas, e s\u00f3 teria salva\u00e7\u00e3o se empreendesse um vigoroso esfor\u00e7o de moderniza\u00e7\u00e3o, de prefer\u00eancia modelado no exemplo americano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fordismo lhe parecia a solu\u00e7\u00e3o ideal para nossa d\u00e9bil industrializa\u00e7\u00e3o, e o petr\u00f3leo seria o combust\u00edvel indispens\u00e1vel \u00e0 reden\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o. Lobato est\u00e1 na origem do \u201cpetr\u00f3leo \u00e9 nosso\u201d, mas ele n\u00e3o era um chauvinista, um patriota r\u00fastico que queria afastar o capital estrangeiro do esfor\u00e7o de capacita\u00e7\u00e3o industrial e tecnol\u00f3gica. Ele se batia contra os \u201ctrustes estrangeiros\u201d n\u00e3o porque fossem estrangeiros, mas porque via neles uma conspira\u00e7\u00e3o contra a prospec\u00e7\u00e3o de po\u00e7os no Brasil, ao preferirem as jazidas mais f\u00e1ceis do Oriente M\u00e9dio. Achava que o governo n\u00e3o fazia esfor\u00e7os suficientes nessa dire\u00e7\u00e3o, e denunciou o \u201centreguismo\u201d da ditadura Vargas: por isso foi processado e preso. Mas a sua concep\u00e7\u00e3o de progresso era indiscutivelmente americana: ele foi mais um derrotado pelo nacionalismo rastaquera e pelo estatismo arraigado nos cora\u00e7\u00f5es e mentes das elites pol\u00edticas e industriais. S\u00f3 o fato de proclamar o valor dos livros na constru\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o j\u00e1 lhe valeria a entrada num pante\u00e3o da p\u00e1tria. Pena\u2026<\/p>\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><strong>7) OSWALDO ARANHA<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"OswaldoAranha\" src=\"http:\/\/spotniks.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/OswaldoAranha.jpg\" width=\"1025\" height=\"811\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paradoxalmente, s\u00f3 foi derrotado quando finalmente chegou ao momento de maior gl\u00f3ria, e pelo pr\u00f3prio homem que ajudou a colocar no poder. A \u201cestrela da revolu\u00e7\u00e3o liberal\u201d de 1930, foi de fato o homem que \u201cliquidou\u201d a Rep\u00fablica Velha, ante as hesita\u00e7\u00f5es e d\u00favidas de Get\u00falio Vargas quanto \u00e0s chances de vit\u00f3ria do movimento contra Washington Lu\u00eds e seu presidente eleito do bolso do colete. N\u00e3o fossem os esfor\u00e7os decididos de Aranha, no sentido de unir ga\u00fachos e mineiros, e de aliciar for\u00e7as decisivas no Ex\u00e9rcito e nas tropas estaduais militarizadas, a revolu\u00e7\u00e3o de 1930 n\u00e3o seria o marco da moderniza\u00e7\u00e3o do Brasil e da constru\u00e7\u00e3o de um Estado moderno, n\u00e3o mais a \u201cRep\u00fablica carcomida\u201d das oligarquias do caf\u00e9-com-leite. Sucessivamente ministro da Justi\u00e7a, da Fazenda (quando ele encaminha os problemas da d\u00edvida externa e dos estoques de caf\u00e9) e embaixador em Washington, Aranha estava no auge de sua gl\u00f3ria quando decide abandonar, por desgosto, seu posto diplom\u00e1tico, na sequ\u00eancia do Estado Novo, em novembro de 1937, que repudiou imediatamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi apenas sua amizade com Vargas, e a necessidade que este tinha de manter as melhores rela\u00e7\u00f5es poss\u00edveis com os americanos \u2013 a despeito de suas not\u00f3rias simpatias pelos regimes fascistas da Europa \u2013 que explicam seu retorno \u00e0 pol\u00edtica, como chanceler do Estado Novo, de mar\u00e7o de 1938 a agosto de 1944. Sua a\u00e7\u00e3o \u00e0 frente do Itamaraty foi decisiva para conter a inclina\u00e7\u00e3o de muitos dos expoentes do regime por uma alian\u00e7a com as pot\u00eancias nazifascistas, aparentemente invenc\u00edveis no in\u00edcio dos anos 1940, e para ancorar vigorosamente o Brasil no grupo das Na\u00e7\u00f5es Aliadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aranha sempre foi um candidato natural das for\u00e7as democr\u00e1ticas \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica: hipoteticamente em 1934, numa eventual escolha alternativa pela Constituinte (e provavelmente por isso, Vargas decidiu manda-lo para Washington); talvez em 1938, se as elei\u00e7\u00f5es previstas n\u00e3o tivessem sido cortadas pelo golpe de Estado; possivelmente ao final do Estado Novo, quando Vargas ainda manobrava para continuar, depois indicando um sucessor de sua escolha; em 1950, quando foi sondado, mas preferiu deixar o terreno livre para o ex-ditador; ou ainda, e finalmente, \u00e0 morte deste, nas elei\u00e7\u00f5es de 1955, disputadas por muitos candidatos bem menos qualificados do que ele. Foi uma pena que sua falta de ambi\u00e7\u00e3o, e sua fidelidade irrestrita ao \u201cirm\u00e3o maior\u201d que era Vargas, obstaram que ele galgasse o posto mais alto da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para se ter uma ideia de como o Brasil poderia ter sido diferente, se ele tivesse ascendido ao comando da na\u00e7\u00e3o, basta ler a carta que Aranha enviou a Vargas para que este discutisse os assuntos da guerra e da paz no encontro que o ditador teria em Natal com Franklin Roosevelt, em janeiro de 1943. O maquiav\u00e9lico ditador n\u00e3o s\u00f3 o afastou trai\u00e7oeiramente dessas conversa\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m impediu um encontro especial que se realizaria em Washington com o presidente americano no mesmo m\u00eas em que Aranha foi humilhado pela pol\u00edcia pol\u00edtica do regime, no triste epis\u00f3dio da Sociedade das Am\u00e9ricas, em agosto de 1944, o que acabou determinando sua sa\u00edda da chancelaria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela carta, Aranha delineou n\u00e3o apenas um esquema de alian\u00e7a com os EUA, para ganhar a guerra, mas tamb\u00e9m uma estreita coopera\u00e7\u00e3o para participar da nova ordem mundial a partir da restaura\u00e7\u00e3o da paz; ele incluiu, sobretudo, um programa inteiro de moderniza\u00e7\u00e3o industrial e de capacita\u00e7\u00e3o do Brasil, com ajuda americana, de molde a realmente impulsionar o grande deslanche do pa\u00eds \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de pot\u00eancia regional (num esquema n\u00e3o muito diferente da alian\u00e7a n\u00e3o escrita defendida por Rio Branco, e mais enfaticamente por Nabuco, no come\u00e7o do s\u00e9culo). O Brasil teria sido um pa\u00eds muito diferente do que foi o caso, e certamente melhor, se Oswaldo Aranha tivesse ascendido \u00e0 presid\u00eancia e imprimido um estilo de governan\u00e7a e de pol\u00edticas econ\u00f4micas bem mais abertas e propensas \u00e0 integra\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica e na economia mundiais.<\/p>\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><strong>8) EUG\u00caNIO GUDIN<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"gudin\" src=\"http:\/\/spotniks.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/gudin.jpg\" width=\"1025\" height=\"772\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um personagem nascido no s\u00e9culo 19, que quase atravessou todo o s\u00e9culo 20, pregando sempre as mesmas ideias liberais em economia e de simples sensatez na gest\u00e3o p\u00fablica. Formado em engenharia, mas economista por gosto, Gudin foi um aderente da escola neocl\u00e1ssica, mas de fato um ecl\u00e9tico, e o respons\u00e1vel pela institucionaliza\u00e7\u00e3o dos cursos de economia nas faculdades brasileiras de humanidades e de ci\u00eancias sociais em 1944. No mesmo ano, e no seguinte, foi protagonista do mais importante debate jamais ocorrido na hist\u00f3ria intelectual do Brasil; este representou, na verdade, um anticl\u00edmax, no sentido em que sua import\u00e2ncia tanto te\u00f3rica quanto pr\u00e1tica foi deixada de lado pelo \u201ccurso natural das coisas\u201d, ou seja, pela continuidade, em nossa governan\u00e7a, das mesmas inclina\u00e7\u00f5es e tend\u00eancias estatizantes e intervencionistas que caracterizam o universo conceitual das lideran\u00e7as pol\u00edticas e empresariais do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O debate ocorreu quando se discutia abandonar os mecanismos intervencionistas em vigor durante o per\u00edodo b\u00e9lico para adotar novos instrumentos capazes de guiar a a\u00e7\u00e3o do Estado no apoio ao processo de industrializa\u00e7\u00e3o (sin\u00f4nimo de desenvolvimento na concep\u00e7\u00e3o da \u00e9poca). Gudin, que naturalmente defendia princ\u00edpios liberais e mecanismos de mercado para guiar a a\u00e7\u00e3o do Estado no fomento desse processo, teve como contendor no debate o industrial e intelectual \u2013 professor na Escola Paulista de Sociologia e Pol\u00edtica \u2013 Roberto Simonsen. Em 1930, fez traduzir e publicar pelo CIESP, o Centro da Ind\u00fastria do Estado de S\u00e3o Paulo, que ele tinha criado em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 FIESP, o livro do economista romeno Mihail Manoilescu,\u00a0<em>Teoria do Interc\u00e2mbio Desigual e do Protecionismo<\/em>, uma atualiza\u00e7\u00e3o \u201ccient\u00edfica\u201d das ideias de Friedrich List. Simonsen, obviamente, se bateu pelo planejamento estatal, pelo protecionismo tarif\u00e1rio e pelos subs\u00eddios oficiais \u00e0 \u201cind\u00fastria infante\u201d, enfim, todo o contr\u00e1rio do que pensava e preconizava Gudin, que era pela ades\u00e3o do Brasil aos princ\u00edpios das vantagens comparativas, que recomendavam incrementar o esfor\u00e7o de moderniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, melhorar a infraestrutura e o capital humano, e manter uma governan\u00e7a econ\u00f4mica em bases s\u00f3lidas e fiscalmente equilibradas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O resultado do debate foi mais uma vez paradoxal: Gudin saiu-se como o seu vencedor te\u00f3rico, ao demonstrar a inconsist\u00eancia l\u00f3gica e a escassa solidez pr\u00e1tica dos argumentos de Simonsen. Mas este foi, ao fim e ao cabo, o vencedor efetivo do debate, uma vez que, no decurso das d\u00e9cadas seguintes, todos os governos, apoiados pelos industriais e pelos empres\u00e1rios em geral, seguiram as recomenda\u00e7\u00f5es dos estatizantes, dos nacionalistas prim\u00e1rios, dos protecionistas declarados, que sempre foram legi\u00e3o em todas as esferas da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e na vida civil do pa\u00eds. Mais uma vez, o derrotado foi o Brasil, \u00fanico pa\u00eds no mundo a ter conhecido oito (OITO) moedas sucessivas no espa\u00e7o de pouco mais de meio s\u00e9culo: mil-r\u00e9is, cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, cruzado novo, cruzeiro, cruzeiro real, real. N\u00e3o \u00e9 preciso referir-se aos n\u00fameros astron\u00f4micos dos nossos processos inflacion\u00e1rios para constatar os desastres criados pelos \u00eamulos de Roberto Simonsen, que eliminaram na pr\u00e1tica as receitas mais equilibradas e ponderadas do longevo Gudin. Ele continuou, at\u00e9 o final de sua vida secular, a preconizar as mesmas receitas, sempre para ser derrotado pela realidade.<\/p>\n<h1 style=\"text-align: justify;\">9)\u00a0<strong>ROBERTO CAMPOS<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"roberto campos\" src=\"http:\/\/spotniks.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/roberto-campos.jpg\" width=\"1011\" height=\"569\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ex-seminarista que se fez diplomata \u00e0s v\u00e9speras da Segunda Guerra, teve a chance de servir em Washington quando se realizou a c\u00e9lebre confer\u00eancia de Bretton Woods, em 1944, na qual ele era um simples assessor, e n\u00e3o um delegado. O mesmo ocorreu na confer\u00eancia de Havana, sobre com\u00e9rcio e emprego, em 1947-48, quando ele continuou a aperfei\u00e7oar seu conhecimento pr\u00e1tico de economia, ao mesmo tempo em que fazia um mestrado nessa \u00e1rea na George Washington University, quando defendeu uma tese sobre os ciclos econ\u00f4micos, de tinturas tanto neocl\u00e1ssicas quanto precocemente keynesianas. Ele ainda era um partid\u00e1rio do Estado promotor do desenvolvimento econ\u00f4mico, quando exerceu o cargo de diretor no BNDE, nos anos 1950, quando colaborou na arrancada dos \u201ccinquenta anos em cinco\u201d do governo JK, que tamb\u00e9m elevou a infla\u00e7\u00e3o a patamares nunca antes vistos no Brasil, inclusive com a constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia (que foi feita sem or\u00e7amento, \u00e0 margem do or\u00e7amento e contra o or\u00e7amento, \u00e0 raz\u00e3o de 1,5% de d\u00e9ficit fiscal durante quatro anos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o surpreende, assim, que o Brasil fosse levado a uma situa\u00e7\u00e3o de grave desequil\u00edbrio or\u00e7ament\u00e1rio e de enormes problemas de balan\u00e7o de pagamentos no in\u00edcio dos anos 1960, quando ele foi, durante tr\u00eas anos, embaixador em Washington. Ele se demitiu do posto, exasperado com a in\u00e9pcia de Jango, tr\u00eas meses antes do golpe de 31 de mar\u00e7o de 1964, cujos l\u00edderes o guindaram \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de ministro do planejamento, em dobradinha com o ministro da Fazenda Octavio Gouvea de Bulh\u00f5es. Ambos, entre 1964 e 1967, conduziram o mais importante processo de reformas econ\u00f4micas e administrativas jamais empreendido no Brasil, um conjunto ambicioso de mudan\u00e7as constitucionais e de medidas infraconstitucionais que abriram o caminho para o mais vigoroso ciclo de crescimento de nossa hist\u00f3ria econ\u00f4mica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paradoxalmente, por\u00e9m, os dois, ainda que liberais em esp\u00edrito e em inten\u00e7\u00e3o, foram tamb\u00e9m os respons\u00e1veis pelo in\u00edcio da mais imponente escalada econ\u00f4mica estatal jamais vista nessa mesma hist\u00f3ria. N\u00e3o s\u00f3 eles, pois que seus sucessores, em especial os acad\u00eamicos Delfim Netto e M\u00e1rio Henrique Simonsen, impulsionaram, com o apoio entusiasta dos militares reformistas, esse engrandecimento in\u00e9dito do ogro estatal, elevando enormemente a carga fiscal \u2013 a pretexto de aumentar o investimento p\u00fablico \u2013, criando dezenas de estatais em todos os setores considerados \u201cestrat\u00e9gicos\u201d, n\u00e3o apenas para a economia, mas tamb\u00e9m para a \u201cseguran\u00e7a nacional\u201d. De certa forma, o Brasil do regime militar conduziu uma esp\u00e9cie de \u201cstalinismo para os ricos\u201d, uma industrializa\u00e7\u00e3o \u201cnum s\u00f3 pa\u00eds\u201d que respeitava inteiramente o vezo nacionalista r\u00fastico dos militares e sua prefer\u00eancia pela mais acabada autarquia produtiva, essa introvers\u00e3o m\u00edope que tinha sido a marca dos regimes fascistas da Europa dos anos 1930 (por acaso, um per\u00edodo no qual muitos dos l\u00edderes da \u201crevolu\u00e7\u00e3o de 1964\u201d estavam estudando nas academias militares e aprendendo rudimentos econ\u00f4micos de \u201cindepend\u00eancia e de soberania nacional\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Roberto Campos detectou desde muito cedo essa deriva do Estado reformista-modernizador dos militares para um \u201ccomplexo industrial-militar\u201d orientado mais pelos princ\u00edpios da \u201cseguran\u00e7a nacional\u201d do que pelos saud\u00e1veis valores da economia de mercado; passou o resto de sua vida tentando reverter o intervencionismo exacerbado do regime militar e o nacionalismo tosco dos pol\u00edticos da redemocratiza\u00e7\u00e3o. Sem sucesso, por\u00e9m: como Raymond Aron, na Fran\u00e7a, que durante anos lutou contra os instintos socialistas da intelectualidade parisiense, Campos lutou contra a indig\u00eancia mental de nossos pol\u00edticos e a ignor\u00e2ncia econ\u00f4mica da maior parte da intelligentsia nacional (que Millor Fernandes chamava de \u201cburritsia\u201d acad\u00eamica). Como Aron, igualmente, s\u00f3 foi reconhecido como vision\u00e1rio ao final da vida, e ainda assim, nem um, nem outro, conseguiu recolocar os respectivos pa\u00edses no caminho das reformas liberais e pr\u00f3-mercado. A despeito de ter acertado em praticamente 90% do que escreveu durante toda a sua vida, Campos foi ironicamente derrotado por uma de suas mais conhecidas ironias: \u201co Brasil \u00e9 um pa\u00eds que n\u00e3o perde oportunidade de perder oportunidades\u201d.<\/p>\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><strong>10) GUSTAVO FRANCO<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Gustavo Franco-3\" src=\"http:\/\/spotniks.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Gustavo-Franco-3.jpg\" width=\"1140\" height=\"712\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos mais jovens expoentes da equipe que idealizou, montou e administrou o lan\u00e7amento do Plano Real, o mais bem sucedido esfor\u00e7o de estabiliza\u00e7\u00e3o macroecon\u00f4mica conhecido em nossa hist\u00f3ria econ\u00f4mica \u2013 hoje, infelizmente, amea\u00e7ado pela Grande Destrui\u00e7\u00e3o lulopetista \u2013, que exibe a distin\u00e7\u00e3o adicional de ter concebido o regime de transi\u00e7\u00e3o da antiga e desvalorizada s\u00e9tima moeda de nossa hist\u00f3ria monet\u00e1ria para o Real, mediante a indexa\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria via URV, cuja inspira\u00e7\u00e3o lhe tinha sido dada ao estudar a experi\u00eancia alem\u00e3 de sa\u00edda da infla\u00e7\u00e3o, em 1923. Ele tamb\u00e9m foi o defensor de uma pol\u00edtica de capitais e de c\u00e2mbio bem mais livre do que o normalmente admitido tradicionalmente, n\u00e3o apenas nas faculdades de economia, mas sobretudo nos escal\u00f5es governamentais, n\u00e3o obtendo inteiro sucesso nessa \u00e1rea, em raz\u00e3o, como sempre, dos azares da pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira vers\u00e3o do Plano Real previa um esfor\u00e7o de ajuste fiscal bem mais severo do que o efetivamente realizado, n\u00e3o implementado porque o presidente Itamar Franco queria uma \u201cestabiliza\u00e7\u00e3o sem recess\u00e3o\u201d. Foi preciso, assim, manter os juros num patamar bem mais elevado do que o adequado, pois que a \u00e2ncora fiscal, que deveria ter sido implantada, foi substitu\u00edda por uma \u00e2ncora cambial, que redundou, contra a vontade de muitos economistas, numa excessiva valoriza\u00e7\u00e3o do Real (da\u00ed os desequil\u00edbrios de transa\u00e7\u00f5es correntes acumulados na segunda metade dos anos 1990). O resultado foi a crise de 1998-99, ainda assim provocada por fatores externos: as crises asi\u00e1ticas de 1997 e a morat\u00f3ria russa de agosto de 1998, que impactou diretamente o Brasil; a situa\u00e7\u00e3o foi enfrentada mediante um programa de apoio financeiro das institui\u00e7\u00f5es de Bretton Woods e de pa\u00edses credores, com sucesso relativo at\u00e9 a d\u00e9cada seguinte, quando a crise argentina, o apag\u00e3o el\u00e9trico e as elei\u00e7\u00f5es de 2002 (e os efeitos econ\u00f4micos do PT) agravaram o quadro de turbul\u00eancias no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gustavo Franco, que tinha sido secret\u00e1rio de pol\u00edtica econ\u00f4mica na gest\u00e3o Itamar e depois diretor de assuntos internacionais do Banco Central, ao iniciar-se a gest\u00e3o FHC, foi elevado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de presidente do BC em meio \u00e0s turbul\u00eancias financeiras da crise asi\u00e1tica; conduziu um meticuloso programa de ajustes cambiais que, teoricamente pelo menos, permitiriam ao Brasil compensar a valoriza\u00e7\u00e3o por etapas, para evitar uma grave crise e mais infla\u00e7\u00e3o. A press\u00e3o dos mercados, e do pr\u00f3prio jogo pol\u00edtico, foi entretanto mais forte, e Gustavo se viu constrangido a sair do BC no auge da desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial do in\u00edcio de 1999, e antes do estabelecimento dos regimes de metas de infla\u00e7\u00e3o e de flutua\u00e7\u00e3o cambial, finalmente adotados por Arm\u00ednio Fraga, levado \u00e0 presid\u00eancia do BC pouco depois. Uma hist\u00f3ria completa desses epis\u00f3dios, do ponto de vista da pol\u00edtica cambial, ainda est\u00e1 para ser escrita e o pr\u00f3prio Gustavo \u00e9 um bom candidato para empreender a tarefa. Mas esse \u00e9 apenas um detalhe num itiner\u00e1rio de reformas tentativas que Gustavo Franco tentou impulsionar e que aguardam ainda hoje para serem continuadas e completadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A import\u00e2ncia de Gustavo Franco, como economista e intelectual, est\u00e1 em sua condi\u00e7\u00e3o de debatedor, de publicista, ao defender em seus muitos artigos, entrevistas e palestras, e em diversos livros, o Plano Real como apenas o in\u00edcio de um processo de reformas e de mudan\u00e7as estruturais no Estado e na economia do Brasil que o levariam da condi\u00e7\u00e3o de adepto eterno de um keynesianismo de botequim e de um cepalianismo tosco ao status de \u201cpa\u00eds normal\u201d, ou seja, simplesmente aderente de regras claras, est\u00e1veis e transparentes de gest\u00e3o econ\u00f4mica, como compete a qualquer pa\u00eds dotado de uma economia de mercado digna desse nome. Infelizmente, a gest\u00e3o econ\u00f4mica companheira fez o Brasil retroceder pelo menos vinte anos economicamente, e muito mais ainda moralmente falando. Gustavo Franco tamb\u00e9m foi um derrotado, ainda que temporariamente, uma vez que as reformas que ele preconizava n\u00e3o foram, sen\u00e3o minimamente, implementadas nos anos seguintes, e muitas delas revertidas na gest\u00e3o irrespons\u00e1vel dos lulopetistas. Seus escritos e declara\u00e7\u00f5es indicam o que est\u00e1 aberto nessa agenda de \u201cwork in progress\u201d (na verdade, evoluindo para tr\u00e1s, atualmente).<\/p>\n<h1 style=\"text-align: justify;\">OS \u201cDERROTADOS\u201d DO DESENVOLVIMENTO BRASILEIRO: UM BALAN\u00c7O FRUSTRANTE<\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"8322010592_0aeebc7f3c_b\" src=\"http:\/\/spotniks.com\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/8322010592_0aeebc7f3c_b.jpg\" width=\"1024\" height=\"683\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas as personalidades brevemente referidas aqui foram, em primeiro lugar, pensadores, intelectuais com distintas forma\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas \u2013 ou na vida pr\u00e1tica, como Irineu Evangelista de Souza \u2013 e com diferentes situa\u00e7\u00f5es sociais, de atua\u00e7\u00e3o no setor p\u00fablico e de responsabilidade nos governos aos quais serviram ou com os quais trabalharam \u2013 ou n\u00e3o, caso de Hip\u00f3lito e Monteiro Lobato. V\u00e1rios conceberam planos mais ou menos arrojados para o futuro do Brasil, alguns com projetos ambiciosos de mudan\u00e7as estruturais, outros \u2013 como Gudin \u2013 com um cuidado mais prosaico com uma gest\u00e3o simplesmente respons\u00e1vel da coisa p\u00fablica. Todos eles preconizaram reformas corajosas para eliminar obst\u00e1culos e enfrentar os problemas e desafios que constatavam existir no itiner\u00e1rio do desenvolvimento brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De certa forma, muitos deles foram vision\u00e1rios, mas sensatos, no sentido em que nenhum deles concebeu qualquer projeto ut\u00f3pico de reforma integral, revolucion\u00e1ria, da sociedade brasileira. Nenhum deles foi um \u201cengenheiro social\u201d, no sentido v\u00e1rias vezes criticado por um pensador liberal como Isaiah Berlin: todos eles preconizaram atuar nos quadros dos regimes constitucionais em vigor, respeitando as mais amplas liberdades \u2013 sobretudo a de empreender \u2013 e os princ\u00edpios e valores dos regimes democr\u00e1ticos. N\u00e3o por acaso, as propostas por eles formuladas se aproximavam do modelo constitucional e de governan\u00e7a de corte brit\u00e2nico, de amplo sucesso pr\u00e1tico nos Estados Unidos e nos pa\u00edses que institucionalmente e culturalmente pertencem ao mesmo arco civilizat\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhum deles teve sucesso \u2013 no m\u00e1ximo parcial \u2013 nas reformas e nas medidas preconizadas para levar o Brasil a um patamar mais alto de desenvolvimento pol\u00edtico, econ\u00f4mico e social, num processo de total respeito \u00e0s regras elementares do jogo democr\u00e1tico, como diria Norberto Bobbio. Ali\u00e1s, o jurista e fil\u00f3sofo italiano, a despeito de seu imenso sucesso intelectual e do prestigio c\u00edvico alcan\u00e7ado, foi outro derrotado em seu pr\u00f3prio pa\u00eds, por acaso caracterizado por uma governan\u00e7a quase t\u00e3o corrupta quanto a brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os brasileiros, se tivessem logrado sucesso na implementa\u00e7\u00e3o das medidas propostas \u2013 se tivessem sido por acaso guindados a posi\u00e7\u00f5es de mais alta responsabilidade governativa, o que ocorreu unicamente com Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, mas ele rapidamente \u201cpodado\u201d pelo seu soberano \u2013 teriam provavelmente mudado o Brasil de uma forma mais profunda, mais intensa, e mais positiva do que efetivamente ocorreu nos dois s\u00e9culos que levam de Hip\u00f3lito Jos\u00e9 da Costa a Gustavo Franco. Este \u00faltimo continua um batalhador incans\u00e1vel pelas reformas necess\u00e1rias, e o \u00fanico \u201csobrevivente\u201d (com perd\u00e3o pela palavra) nesta nossa sele\u00e7\u00e3o: a ele cabe manter a tocha das reformas, em primeiro lugar como publicista, eventualmente, e novamente, como reformador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No momento em que o Brasil enfrenta a mais grave crise de sua hist\u00f3ria \u2013 certamente na esfera econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m, e sobretudo, no plano moral \u2013 \u00e9 \u00fatil refletir sobre todas essas oportunidades perdidas, sobre a a\u00e7\u00e3o, em grande medida frustrada, de todos esses \u201cderrotados\u201d na pr\u00e1tica. Do meu ponto de vista, eles s\u00e3o vitoriosos morais, gigantes intelectuais da moderniza\u00e7\u00e3o e do progresso brasileiro, que, por um conjunto variado de circunst\u00e2ncias, n\u00e3o puderam conduzir suas propostas a bom termo, ou que n\u00e3o tiveram a oportunidade, em virtude de um ambiente particularmente negativo para os reformistas de qualquer quilate, de v\u00ea-las implementadas pelos tomadores de decis\u00f5es de cada momento. A \u201cagenda conjunta\u201d de reformas modernizadoras \u2013 e corretoras de nossos grandes defeitos sociais \u2013, que todos eles preconizavam, permanece inconclusa: na verdade, ela s\u00f3 existe no papel, num exerc\u00edcio como este de levantamento das nossas lacunas e omiss\u00f5es, uma vez que n\u00e3o pudemos contar, ainda, com estadistas que as implementassem verdadeiramente, com base num consenso necess\u00e1rio e no respeito das liberdades democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pergunta final \u00e9 inevit\u00e1vel: quando vamos contar com personalidades que se apoiem nas propostas desses gigantes intelectuais para arrega\u00e7ar as mangas e \u201ccivilizar o Brasil\u201d, na linguagem dos pr\u00f3ceres da independ\u00eancia? N\u00e3o sabemos ainda. Mas seria \u00fatil retomar cada uma das propostas desses pioneiros, para ver o que ainda falta fazer no Brasil. M\u00e3os \u00e0 obra, pesquisadores e ativistas: a agenda j\u00e1 existe. Cabe agora debater os meios de implement\u00e1-la, para passarmos da condi\u00e7\u00e3o de \u201cderrotados\u201d \u00e0 de vencedores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que tal come\u00e7ar pelo levantamento do que falta fazer?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Spotniks<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>**Paulo Roberto de Almeida \u00e9\u00a0Doutor em Ci\u00eancias Sociais pela Universidade de Bruxelas.\u00a0Foi ministro-conselheiro na Embaixada do Brasil em Washington (1999-2003). 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