{"id":4900,"date":"2018-07-05T10:55:16","date_gmt":"2018-07-05T13:55:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.campal.com.br\/site\/app\/webroot\/blog\/?p=4900"},"modified":"2018-07-05T10:55:16","modified_gmt":"2018-07-05T13:55:16","slug":"o-trabalho-e-as-maquinas-inteligentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.campal.com.br\/site\/o-trabalho-e-as-maquinas-inteligentes\/","title":{"rendered":"O trabalho e as m\u00e1quinas inteligentes"},"content":{"rendered":"<p>Nos idos de 1984, em seu &#8220;Os Caminhos do Para\u00edso&#8221;, Andr\u00e9 Gorz, um autoproclamado &#8220;revolucion\u00e1rio-reformista&#8221;, afirmou claramente que a &#8220;revolu\u00e7\u00e3o microecon\u00f4mica prenuncia a aboli\u00e7\u00e3o do trabalho&#8221;. Chegou at\u00e9 a argumentar que &#8220;o trabalho assalariado&#8230; poder\u00e1 ter deixado de ser uma preocupa\u00e7\u00e3o central no fim do s\u00e9culo&#8221;. Sua determina\u00e7\u00e3o da \u00e9poca estava errada. Mas analistas s\u00e9rios acham que, direcionalmente, ele estava certo. Diante disso, o que um mundo de m\u00e1quinas inteligentes poder\u00e1 significar para a humanidade? Ser\u00e1 que os seres humanos se tornar\u00e3o t\u00e3o economicamente irrelevantes quanto os cavalos? Se isso ocorrer, o que acontecer\u00e1 com a nossa autoestima e com a organiza\u00e7\u00e3o das nossas sociedades?<\/p>\n<p>Em recente palestra na universidade, Adair Turner, ex-presidente do \u00f3rg\u00e3o regulador financeiro brit\u00e2nico e presidente do Institute for New Economic Thinking, abordou exatamente essas perguntas. Ele partiu da premissa de que m\u00e1quinas inteligentes ser\u00e3o, em \u00faltima an\u00e1lise, capazes de desempenhar a maioria das formas de trabalho atuais melhor do que as pessoas, e a custo mais baixo. Trata-se, argumenta ele, de uma quest\u00e3o de &#8220;quando&#8221;, e n\u00e3o de &#8220;se&#8221;. Vai acontecer devido ao avan\u00e7o progressivo do poder de processamento, da reprodutibilidade sem custo do software e da ascens\u00e3o do aprendizado de m\u00e1quinas. Os deuses rob\u00f4s nos tornar\u00e3o a todos desnecess\u00e1rios.<\/p>\n<p>Inspirado nas ideias do relat\u00f3rio &#8220;A Future that Works&#8221;, pulicado pelo McKinsey Global Institute no ano passado, Lord Turner acrescenta que esse futuro n\u00e3o vir\u00e1 de maneira uniforme: alguns ser\u00e3o mais afetados muito antes do que outros. Al\u00e9m disso, apesar de as m\u00e1quinas inteligentes n\u00e3o poderem executar todos os aspectos de uma determinada tarefa, elas podem desbancar um grande contingente de trabalhadores.<\/p>\n<p>Com a atual tecnologia, as tarefas f\u00edsicas previs\u00edveis e a capta\u00e7\u00e3o e processamento de dados ficar\u00e3o especialmente vulner\u00e1veis. Por setor, &#8220;a hotelaria e os servi\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de comida pronta&#8221;, de produ\u00e7\u00e3o industrial e de transportes ficar\u00e3o especialmente vulner\u00e1veis. De acordo com estudo de Jason Furman, ex-presidente do Conselho dos Assessores Econ\u00f4micos dos Estados Unidos, e Robert Seamans, da Faculdade Stern de Neg\u00f3cios, os que ganham menos e os dotados de menor grau de instru\u00e7\u00e3o est\u00e3o mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>Lord Turner argumenta que o que est\u00e1 acontecendo explica tamb\u00e9m o &#8220;paradoxo da produtividade&#8221; &#8211; inova\u00e7\u00e3o acelerada, mas baixo crescimento da produtividade &#8211; discutido por mim duas semanas atr\u00e1s. Grande parte da explica\u00e7\u00e3o pode ser uma guinada de empregos com sal\u00e1rios relativamente elevados em setores com crescimento de produtividade relativamente acelerado, como a produ\u00e7\u00e3o industrial, para empregos com sal\u00e1rios relativamente baixos em setores de baixo crescimento da produtividade, como cuidados pessoais, assist\u00eancia domiciliar de sa\u00fade e vendas de varejo.<br \/>\nDos dez setores dos EUA com a maior previs\u00e3o de crescimento do n\u00edvel de emprego entre 2014 e 2024, que dever\u00e3o gerar 29% do total de novos postos de trabalho, oito pagam sal\u00e1rios m\u00e9dios inferiores \u00e0 m\u00e9dia nacional. Esse cen\u00e1rio, naturalmente, agravar\u00e1 a desigualdade de renda, e ter\u00e1 implica\u00e7\u00f5es fortemente negativas sobre a produtividade geral.<\/p>\n<p><strong><cite dir=\"ltr\">O mais prov\u00e1vel \u00e9 o agravamento da pol\u00edtica da gan\u00e2ncia e do ressentimento. O resultado pode ser a plutocracia, a autocracia populista ou a mescla delas. Se a automa\u00e7\u00e3o tornar a humanidade economicamente irrelevante, os desafios ser\u00e3o ainda mais radicais<\/cite><\/strong><\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 tudo. Lord Turner tamb\u00e9m sugere outros motivos para a expans\u00e3o da desigualdade e para o baixo crescimento da produtividade m\u00e9dia. O primeiro \u00e9 a expans\u00e3o das atividades de &#8220;soma zero (ou pr\u00f3xima de zero)&#8221; [em que s\u00f3 se ganha quando o outro perder], algumas das quais n\u00e3o s\u00e3o medidas em termos de produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e poucas das quais contribuem para o bem-estar social: pense em lobistas, investidores de &#8220;flash trading&#8221;[que recebem informa\u00e7\u00f5es fra\u00e7\u00f5es de segundos antes que o mercado geral] ou advogados tributaristas.<\/p>\n<p>Mesmo a instru\u00e7\u00e3o acad\u00eamica formal tem um car\u00e1ter fortemente de soma zero: trata-se de um bem de posi\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, essas atividades de soma zero s\u00e3o bem-pagas e, assim, extraem uma boa renda. Bem-sucedidos criadores de quase monop\u00f3lios digitais tamb\u00e9m usufruem de uma boa renda. O mesmo, especialmente, ocorre com donos de im\u00f3veis localizados em pr\u00f3speras conurba\u00e7\u00f5es. A nova economia, portanto, \u00e9 o para\u00edso do rentista.<\/p>\n<p>O segundo \u00e9 a subestimativa do valor dos servi\u00e7os gratuitos. Isso \u00e9 poss\u00edvel. Mas os servi\u00e7os gratuitos &#8211; a rede social, por exemplo &#8211; poder\u00e3o contribuir pouco para o bem-estar, observa Lord Turner. Neste momento, as contribui\u00e7\u00f5es podem ser muita ang\u00fastia pessoal e a destrui\u00e7\u00e3o das nossas democracias.<\/p>\n<p>Esse, portanto, \u00e9 o quadro do futuro de m\u00e9dio prazo: crescimento an\u00eamico da produtividade geral e agravamento da desigualdade. Isso \u00e9 incompat\u00edvel com a democracia est\u00e1vel. O mais prov\u00e1vel \u00e9 o agravamento da atual pol\u00edtica da gan\u00e2ncia e do ressentimento. O resultado pode ser a plutocracia, a autocracia populista ou uma mescla delas. Se a automa\u00e7\u00e3o, em \u00faltima an\u00e1lise, tornar a humanidade economicamente irrelevante, os desafios ser\u00e3o ainda mais radicais.<br \/>\nNo m\u00e9dio prazo, enquanto houver uma perspectiva razo\u00e1vel de emprego para as pessoas que querem trabalhar, a pol\u00edtica p\u00fablica decisiva ser\u00e1 subsidiar os postos de trabalho. Tamb\u00e9m \u00e9 vital custear servi\u00e7os p\u00fablicos de alta qualidade para todos, notadamente sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e transporte.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, como argumenta Dean Baker, a concentra\u00e7\u00e3o de renda derivada da escassez de rendimentos clama de forma premente por uma maior taxa\u00e7\u00e3o da riqueza e das maiores faixas de renda, incluindo, notadamente terra e propriedade intelectual. De fato, a propriedade intelectual est\u00e1 sendo, quase certamente, protegida demais nos dias de hoje. H\u00e1 motivos para alguma prote\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o em demasia. Acho que Adam Smith concordaria.<\/p>\n<p>No mais longo prazo, nossos descendentes poder\u00e3o enfrentar um n\u00famero maior de decis\u00f5es existenciais (desde que as m\u00e1quinas lhes permitam tom\u00e1-las). Como poder\u00e3o eles organizar a sociedade em um mundo no qual poucas pessoas conseguem fazer alguma coisa que seja claramente produtiva economicamente? O mundo pode ficar tecnofeudal, com uma elite propriet\u00e1ria que contrata grandes contingentes de criados humanos baratos n\u00e3o por seu valor, e sim pelo prazer da domina\u00e7\u00e3o. Ou as pessoas poder\u00e3o, ao contr\u00e1rio, compartilhar a abund\u00e2ncia de forma mais igualit\u00e1ria, com todos usufruindo do lazer civilizado que foi outrora a seara de muito poucos. A nossa \u00e9 a primeira civiliza\u00e7\u00e3o a encarar o trabalho como a miss\u00e3o mais elevada. Talvez essa estranha ideia pr\u00e9-concebida tenha de ser descartada.<\/p>\n<p>Isso para o futuro distante, sobre o qual, no entanto, temos de pensar agora. Mas as tend\u00eancias em curso requerem a\u00e7\u00e3o. Se o rumo natural das nossas economias apontar para uma extra\u00e7\u00e3o cada vez mais crescente de renda e para a desigualdade, com todos os seus terr\u00edveis resultados sociais e pol\u00edticos, temos de responder de maneira criteriosa e determinada. Esse \u00e9 o grande desafio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos idos de 1984, em seu &#8220;Os Caminhos do Para\u00edso&#8221;, Andr\u00e9 Gorz, um autoproclamado &#8220;revolucion\u00e1rio-reformista&#8221;, afirmou claramente que a &#8220;revolu\u00e7\u00e3o microecon\u00f4mica prenuncia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4953,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"iawp_total_views":1,"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[],"class_list":["post-4900","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias-campal"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.campal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4900","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.campal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.campal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.campal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.campal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4900"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.campal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4900\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.campal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4953"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.campal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4900"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.campal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4900"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.campal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4900"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}