{"id":7818,"date":"2014-02-04T17:01:47","date_gmt":"2014-02-04T17:01:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.campal.com.br\/site\/app\/webroot\/blog\/?p=1482"},"modified":"2014-02-04T17:01:47","modified_gmt":"2014-02-04T17:01:47","slug":"o-terceiro-lugar-rolezinhos-ignorancia-e-a-vontade-de-criar-confrontos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.campal.com.br\/site\/o-terceiro-lugar-rolezinhos-ignorancia-e-a-vontade-de-criar-confrontos\/","title":{"rendered":"O &#034;Terceiro Lugar&#034;: Rolezinhos, ignor\u00e2ncia e a vontade de criar confrontos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.administradores.com.br\/_assets\/modules\/artigos\/artigo_75304.png\" width=\"384\" height=\"272\" \/>O soci\u00f3logo Ray Oldenburg escreveu dois livros sobre o \u201cterceiro lugar\u201d. Important\u00edssimo a qualquer civiliza\u00e7\u00e3o, o terceiro lugar fica entre a moradia e o trabalho, onde pessoas podem se encontrar para se divertir, trocar ideias e relaxar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo ele, a qualidade e acesso aos terceiros lugares \u00e9 uma medida direta do avan\u00e7o de uma sociedade. Quando esses espa\u00e7os est\u00e3o dispon\u00edveis e em bom n\u00famero, as pessoas t\u00eam aonde ir al\u00e9m da rotina de casa &#8211; trabalho &#8211; casa &#8211; trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em v\u00e1rios per\u00edodos considerados de \u201couro\u201d, ou v\u00e1rias cidades consideradas atrativas, os terceiros lugares existiam em boa quantidade e eram acess\u00edveis \u00e0 maioria da popula\u00e7\u00e3o. Sejam \u00c0goras, os mercados abertos onde os antigos gregos se encontravam, os caf\u00e9s de Viena que abrigaram personagens como Freud e Marx, ou os restaurantes, museus e parques das grandes metr\u00f3poles modernas, esses locais permitem que as pessoas tenham qualidade de vida e t\u00eam um imenso valor social e cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cidades com bons \u201cterceiros lugares\u201d geram encontros entre pessoas, inova\u00e7\u00e3o e criatividade. Alguns autores chegam at\u00e9 a propor que contribuem para o bom estado mental dos moradores. Pense sobre a diferen\u00e7a entre estar no isolamento de um grande engarrafamento e passar esse tempo em um parque com algum amigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Infelizmente, como sociedade, n\u00e3o nos destacamos muito pelos espa\u00e7os oferecidos. Os parques s\u00e3o poucos, as op\u00e7\u00f5es culturais ainda mais raras e, quando existem, s\u00e3o caras \u00e0 maioria da popula\u00e7\u00e3o. E eis que entra o \u201crolezinho\u201d. Longe de sair gritando \u201cracismo&#8221; ou \u201ctumulto&#8221; como boa parte da m\u00eddia vem fazendo, vamos analisar isso com um pouco mais de equil\u00edbrio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3prio Oldenburg coloca que quando vemos um grupo de pessoas bebendo na rua, podemos colocar a culpa nessas pessoas, ou na falta de op\u00e7\u00f5es oferecidas a elas. Se os jovens est\u00e3o se aglomerando nos postos de gasolina ou no meio da rua, \u00e9 mais f\u00e1cil culpar o grupo pelo \u201ctumulto\u201d. Mas quais as op\u00e7\u00f5es que essas pessoas realmente t\u00eam?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos complicar um pouquinho mais a discuss\u00e3o (mas n\u00e3o muito), lembrando o fil\u00f3sofo franc\u00eas Pierre Bourdieu. Segundo ele, h\u00e1 muito mais quando falamos de consumo do que capital financeiro. Capital financeiro \u00e9 dinheiro, e \u00e9 importante para comprar coisas. Mas Bourdieu tamb\u00e9m define o capital social, cultural e simb\u00f3lico, que nos dizem o que exatamente consumir, com quem e para quem faremos isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem complicar muito, vamos dar como exemplo o consumo de arte. Dependendo da educa\u00e7\u00e3o que voc\u00ea possui, do c\u00edrculo de amigos e de suas refer\u00eancias, uma exposi\u00e7\u00e3o de arte pode significar para voc\u00ea um monte de rabiscos sem sentido ou um enorme prazer. Boa parte da arte precisa ser aprendida para poder ser apreciada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mesmo vale para todos os tipos de consumo. Aprender a tocar um instrumento musical demanda tempo e dinheiro, coisas que voc\u00ea n\u00e3o tem se est\u00e1 ocupado trabalhando como um louco para pagar as contas. Dessa forma, as distin\u00e7\u00f5es entre classes n\u00e3o se d\u00e3o somente pelo \u201cquem tem dinheiro e quem n\u00e3o tem\u201d, mas tamb\u00e9m como as diversas formas de capital dispon\u00edveis a cada um.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando aos rolezinhos: como sociedade, somos um fracasso total quanto aos terceiros locais. A maioria das pessoas passa a maior parte do tempo em casa, no trabalho, e no tr\u00e2nsito entre esses dois lugares. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que os brasileiros est\u00e3o entre os povos que mais usam m\u00eddias sociais. Na falta de terceiros lugares reais, resta o mundo virtual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o d\u00e1 para tapar o sol com uma peneira. Os espa\u00e7os p\u00fablicos s\u00e3o poucos, pequenos e muitas vezes vergonhosos. Cinemas, teatros e outras coisas s\u00e3o caras demais \u00e0 maioria da popula\u00e7\u00e3o. E todo mundo que j\u00e1 morou em S\u00e3o Paulo sabe da import\u00e2ncia dos shoppings no ecossistema das cidades brasileiras (S\u00e3o Paulo pode ser um caso extremo, mas, cada vez mais, fam\u00edlias em todo o Brasil que n\u00e3o t\u00eam o que fazer v\u00e3o dar uma volta no shopping mais pr\u00f3ximo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o tal confronto entre as classes? Bourdieu tiraria essa de letra. Nosso governo se vangloria de algumas melhorias no \u00e2mbito financeiro nas camadas mais pobres da popula\u00e7\u00e3o. Essas pessoas sabem que podem consumir, querem se sentir inclu\u00eddas na sociedade, e isso \u00e9 bom. No entanto, n\u00e3o basta s\u00f3 dinheiro. Falta cultura, educa\u00e7\u00e3o. Falta questionar se, tendo acesso, porque muita gente ainda se sente intimidada a frequentar os terceiros lugares que s\u00e3o os shoppings para a popula\u00e7\u00e3o brasileira? Porque precisam se sentir confort\u00e1veis em um grande grupo? Falta questionar se \u00e9 s\u00f3 isso que temos a oferecer a essas pessoas. A op\u00e7\u00e3o de ir ou n\u00e3o em turma a um shopping. Faltam op\u00e7\u00f5es, falta cultura, falta desenvolvimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os tais rolezinhos s\u00e3o sim um passo dado por uma camada da popula\u00e7\u00e3o que antes n\u00e3o tinha acesso, e agora est\u00e1 experimentando o que exatamente isso significa. Isso \u00e9 positivo. Mas acho que podemos bem mais que isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes, no entanto, temos que derrubar a ret\u00f3rica da hostilidade. Parar de tentar transformar tudo em conflitos entre pobres e ricos, negros e brancos e assim por diante, e pensar, juntos, como podemos ser uma sociedade melhor, com mais op\u00e7\u00f5es, oportunidades e cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Administradores<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O soci\u00f3logo Ray Oldenburg escreveu dois livros sobre o \u201cterceiro lugar\u201d. 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