{"id":8205,"date":"2019-07-05T09:42:22","date_gmt":"2019-07-05T12:42:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.campal.com.br\/site\/app\/webroot\/blog\/?p=5263"},"modified":"2025-03-20T09:31:44","modified_gmt":"2025-03-20T12:31:44","slug":"o-papel-do-consumo-na-recuperacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.campal.com.br\/site\/o-papel-do-consumo-na-recuperacao\/","title":{"rendered":"O papel do consumo na recupera\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Como j\u00e1 tem sido usual na \u00faltima d\u00e9cada, os indicadores que medem a evolu\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica brasileira seguem frustrando as expectativas. Tomando como refer\u00eancia a pesquisa Focus do Banco Central, desde 2010 as medianas da expectativa de crescimento para o PIB anual chegam ao fim do primeiro semestre em patamares inferiores ao projetado no in\u00edcio do ano. Quando muitos esperavam que 2019 reverteria este quadro, houve nova deteriora\u00e7\u00e3o nas expectativas de crescimento. Se no in\u00edcio de janeiro, a mediana esperada era de 2,53%, finda a primeira metade, a taxa j\u00e1 se encontra em 0,85%, uma retra\u00e7\u00e3o de 66,4%.<\/p>\n\n\n\n<p>Para entendermos os motivos para esta dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o em que nos encontramos, cabe inicialmente aprofundarmos no comportamento dos componentes do PIB. De acordo com as s\u00e9ries mensais do Monitor do PIB elaborada pela FGV\/RJ, cujo \u00faltima leitura refere-se ao m\u00eas de abril, n\u00e3o fosse o forte ritmo de crescimento das exporta\u00e7\u00f5es de produtos agropecu\u00e1rios e, principalmente, da extrativa mineral, a economia brasileira provavelmente j\u00e1 teria retornado a uma din\u00e2mica recessiva.<\/p>\n\n\n\n<p>No per\u00edodo acumulado de janeiro a abril, o volume exportado dos bens agropecu\u00e1rios cresceu 5,7% e da extrativa, 23,5%, sempre na compara\u00e7\u00e3o com o mesmo per\u00edodo de 2018. Dessa forma, a despeito das fortes retra\u00e7\u00f5es nas vendas externas dos bens de consumo dur\u00e1veis (-32,5%) e bens de capital (-12,6%), o volume agregado das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras registrou expans\u00e3o de 4,2%.<\/p>\n\n\n\n<p>No que diz respeito aos componentes da demanda interna (consumo e investimento), os desempenhos mostram-se muito inferiores ao das exporta\u00e7\u00f5es. No caso do consumo das fam\u00edlias, a expans\u00e3o verificada at\u00e9 abril foi de 1,7%, gra\u00e7as ao crescimento da procura pelos bens dur\u00e1veis, que registraram crescimento de 5,1%. J\u00e1 os bens semi e n\u00e3o dur\u00e1veis, que representam a maior parcela do consumo por bens industriais, cresceram apenas 0,7% e 0,8%, respectivamente. Os investimentos agregados, por sua vez, apresentaram desempenho ainda pior, com expans\u00e3o acumulada at\u00e9 abril de apenas 1,1%.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito embora os desempenhos dos componentes de demanda, com raras exce\u00e7\u00f5es, ainda sejam decepcionantes, a frustra\u00e7\u00e3o torna-se muito maior quando se verifica que o poder de transforma\u00e7\u00e3o desta demanda em gera\u00e7\u00e3o efetiva de PIB e renda \u00e9 extremamente limitado. Neste mesmo per\u00edodo de an\u00e1lise, o PIB brasileiro permaneceu praticamente estagnado ao longo do primeiro quadrimestre do ano, com expans\u00e3o de 0,1%.<\/p>\n\n\n\n<p>O n\u00facleo fundamental da explica\u00e7\u00e3o est\u00e1 nas caracter\u00edsticas da estrutura produtiva brasileira e nas limita\u00e7\u00f5es de um modelo de crescimento calcado na produ\u00e7\u00e3o de bens prim\u00e1rios voltados \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata apenas da escala das exporta\u00e7\u00f5es das commodities ser pequena comparada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o agregada, mas principalmente do poder de impulsionar crescimento econ\u00f4mico a cada unidade monet\u00e1ria produzida. Com base na \u00faltima Matriz Insumo Produto (MIP), referente a 2015, \u00e9 poss\u00edvel quantificar o valor de produ\u00e7\u00e3o gerado a cada R$ 1 exportado pelas atividades. No caso da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, a exporta\u00e7\u00e3o de R$ 1 gera (direta e indiretamente) uma produ\u00e7\u00e3o agregada de R$ 1,72. No caso da pecu\u00e1ria, este valor \u00e9 um pouco maior, de R$ 1,80. No caso da exporta\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e de min\u00e9rio, R$ 1 exportado gera uma produ\u00e7\u00e3o final de R$ 1,71 e R$ 1,79, respectivamente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O efeito multiplicador da constru\u00e7\u00e3o \u00e9 inferior ao das atividades vinculadas ao consumo de massa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Outra caracter\u00edstica importante do modelo que vem se configurando diz respeito ao crescimento do conte\u00fado importado de m\u00e1quinas, equipamentos e insumos requeridos nos processos produtivos, substituindo produ\u00e7\u00e3o nacional, em particular nos referidos setores prim\u00e1rios-exportadores. Na agropecu\u00e1ria, apenas de janeiro a maio deste, segundo o Indicador de Com\u00e9rcio Exterior (Icomex), as importa\u00e7\u00f5es de bens intermedi\u00e1rios e de capital cresceu, em quantum, 26,6% e 31,3%, respectivamente. No caso da extrativa, embora o Icomex n\u00e3o disponibilize o dado espec\u00edfico para ela, sabemos que em fun\u00e7\u00e3o do relaxamento das pol\u00edticas de conte\u00fado local no setor de petr\u00f3leo e g\u00e1s, as importa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m cresceram de forma significativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, \u00e9 razo\u00e1vel supor que a agropecu\u00e1ria e extrativa mineral reduziram ainda mais seu poder de arraste das demais atividades. No entanto, ainda que desconsideremos estes efeitos, a pr\u00f3pria MIP de 2015 nos d\u00e1 indica\u00e7\u00f5es de que em termos relativos as atividades que &#8220;lideram&#8221; a retomada da economia brasileira apresentam um reduzido poder de impulsionar crescimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados apontam que a sustenta\u00e7\u00e3o de uma trajet\u00f3ria de recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica depender\u00e1 da reativa\u00e7\u00e3o do consumo de massa, no qual predominam os bens industriais semi e n\u00e3o dur\u00e1veis. N\u00e3o apenas a escala destes segmentos \u00e9 muito maior e os ciclos de vida dos produtos s\u00e3o menores quando comparados aos bens dur\u00e1veis, como os efeitos multiplicadores sobre a produ\u00e7\u00e3o agregada calculados com base na MIP revelam um expressivo poder do consumo de massa de alavancar crescimento. \u00c9 o caso, por exemplo, das atividades produtoras de carnes, a\u00e7\u00facar, demais alimentos, bebidas, cal\u00e7ados e produtos de higiene pessoal\/cosm\u00e9ticos. O gr\u00e1fico traz os efeitos multiplicadores totais sobre a produ\u00e7\u00e3o da varia\u00e7\u00e3o de R$ 1 no consumo direcionado a estas atividades, muito superiores aos efeitos j\u00e1 mencionados das atividades prim\u00e1rio-exportadoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Em geral, d\u00e1-se maior destaque aos investimentos em infraestrutura e seu papel como impulsionador da recupera\u00e7\u00e3o. Sem d\u00favida, representam importantes est\u00edmulos de demanda para reativar o t\u00e3o combalido setor de constru\u00e7\u00e3o civil. No entanto, vale ressaltar que o pr\u00f3prio efeito multiplicador da constru\u00e7\u00e3o (R$ 1,80) \u00e9 inferior ao das atividades vinculadas ao consumo de massa.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma agenda governamental de retomada do crescimento precisa incorporar a preocupa\u00e7\u00e3o com o consumo de massa. A reativa\u00e7\u00e3o deste gasto \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para uma recupera\u00e7\u00e3o mais consistente do PIB e da renda agregada. H\u00e1 diversas iniciativas que podem contribuir para este movimento, mas aproveitando o contexto de debates sobre as reformas, gostaria apenas de mencionar que uma reforma tribut\u00e1ria que busque aliviar os impostos sobre itens do consumo de massa pode ser um dos instrumentos que favore\u00e7am a retomada.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Valor Econ\u00f4mico<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como j\u00e1 tem sido usual na \u00faltima d\u00e9cada, os indicadores que medem a evolu\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica brasileira seguem frustrando as expectativas. 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