{"id":8241,"date":"2019-11-11T23:47:45","date_gmt":"2019-11-12T01:47:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.campal.com.br\/site\/app\/webroot\/blog\/?p=5414"},"modified":"2019-11-11T23:47:45","modified_gmt":"2019-11-12T01:47:45","slug":"o-que-e-neoliberalismo-e-quais-as-disputas-em-torno-do-termo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.campal.com.br\/site\/o-que-e-neoliberalismo-e-quais-as-disputas-em-torno-do-termo\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 neoliberalismo. E quais as disputas em torno do termo"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Manifesta\u00e7\u00f5es no Chile e elei\u00e7\u00f5es na Argentina trazem o conceito de volta ao centro do debate p\u00fablico.<\/h2>\n\n\n\n<p>Neste outubro de 2019, Chile e Argentina passam por uma ebuli\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. No pa\u00eds andino, a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 nas ruas em protestos contra o governo do presidente Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era. Houve mortes e as manifesta\u00e7\u00f5es por melhorias de transporte, sa\u00fade e aposentadorias s\u00f3 cresceram. J\u00e1 os vizinhos argentinos foram \u00e0s urnas escolher um novo presidente, com derrota para o atual mandat\u00e1rio Mauricio Macri.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto Pi\u00f1era como Macri foram eleitos adotando um um discurso liberalizante na economia. E em ambos os casos, a popula\u00e7\u00e3o se manifestou, nas ruas e nas urnas, contra essas pol\u00edticas. Nem mesmo o abandono de medidas liberais ap\u00f3s sinais de resist\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o impediu que Pi\u00f1era e Macri sofressem duras derrotas. Nesse contexto, o termo \u2018neoliberalismo\u2019 voltou \u00e0 tona. A defini\u00e7\u00e3o do conceito n\u00e3o \u00e9 simples, mas seu uso na Am\u00e9rica Latina j\u00e1 dura tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Algumas defini\u00e7\u00f5es para o termo<\/h2>\n\n\n\n<p>O conceito de neoliberalismo \u00e9 amplo e complexo \u2013 sua defini\u00e7\u00e3o passa longe de ser consensual.<\/p>\n\n\n\n<p>Em&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.imf.org\/external\/pubs\/ft\/fandd\/2016\/06\/ostry.htm\">artigo publicado em 2016<\/a>, tr\u00eas&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/expresso\/2016\/06\/05\/Por-que-o-neoliberalismo-n%C3%A3o-%C3%A9-mais-unanimidade-no-FMI\">economistas do FMI<\/a>&nbsp;(Fundo Monet\u00e1rio Internacional) identificaram dois aspectos como a base do que poderia ser definido como neoliberalismo: governos que adotam medidas para tentar aumentar a concorr\u00eancia e&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/expresso\/2019\/09\/30\/Estado-m%C3%ADnimo-na-agenda-dos-anos-90-ao-governo-Bolsonaro\">reduzir o papel do Estado<\/a>. A eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de concorr\u00eancia seria atingida pela desregulamenta\u00e7\u00e3o e abertura dos mercados. J\u00e1 para reduzir a participa\u00e7\u00e3o do Estado, os principais focos seriam as privatiza\u00e7\u00f5es e limita\u00e7\u00f5es dos gastos do governo, evitando deficits fiscais e buscando manter n\u00edveis baixos de endividamento p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 quem veja o neoliberalismo como algo mais amplo, que pode ser entendido como uma filosofia que ultrapassa o espectro econ\u00f4mico. A cientista pol\u00edtica Wendy Brown, professora da Universidade da Calif\u00f3rnia em Berkeley, acredita que o conceito vai al\u00e9m do significado da participa\u00e7\u00e3o do governo na economia, valendo hoje como a imposi\u00e7\u00e3o de\u00a0uma l\u00f3gica de mercado\u00a0sobre todas as esferas da vida. Isso significaria que a chamada \u201craz\u00e3o neoliberal\u201d estaria transformando o significado pol\u00edtico das a\u00e7\u00f5es cotidianas em um significado econ\u00f4mico, impondo uma l\u00f3gica de \u201cempreendedoriza\u00e7\u00e3o\u201d de todos os aspectos da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 acad\u00eamicos que defendem que o termo seja abandonado. O pesquisador Bill Dunn, da Universidade de Sydney, na Austr\u00e1lia, afirma que o conceito de neoliberalismo \u00e9 t\u00e3o amplo que se\u00a0torna vago. Segundo Dunn, o significado pol\u00edtico do termo \u00e9 m\u00ednimo e pouco aceito na sociedade, compondo apenas o vocabul\u00e1rio de uma parcela da esquerda, mas sem estabelecer di\u00e1logo real com outras partes do debate p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O hist\u00f3rico do conceito de neoliberalismo<\/h2>\n\n\n\n<p>O termo neoliberalismo\u00a0surgiu nos anos 1930,\u00a0na \u00c1ustria, tendo como principal defensor o economista Friedrich Hayek. Hayek dizia que o papel do Estado deveria ser de suprir as condi\u00e7\u00f5es para que o mercado operasse livremente. Mas o conceito ganhou corpo e passou a ocupar o centro do debate pol\u00edtico a partir do final dos anos 1970.<\/p>\n\n\n\n<p>O neoliberalismo \u00e9 associado \u00e0 ascens\u00e3o pol\u00edtica de dois importantes personagens da segunda metade do s\u00e9culo 20: a ex-primeira-ministra brit\u00e2nica Margaret Thatcher (1925-2013), que governou o Reino Unido entre 1979 e 1990, e o ex-presidente dos EUA Ronald Reagan (1911-2004), que esteve na Casa Branca entre 1981 e 1989.<\/p>\n\n\n\n<p>Foto:\u00a0Gary Hershorn\/Reuters &#8211; 06.1988<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/incoming\/imagens\/Thatcher-e-Reagan\/ALTERNATES\/LANDSCAPE_640\/Thatcher%20e%20Reagan\" alt=\"Margaret Thatcher e Ronald Reagan durante encontro do G7, em 1988\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Margaret Thatcher e Ronald Reagan durante encontro do G7, em 1988<\/p>\n\n\n\n<p>Thatcher e Reagan assumiram o poder em momentos de turbul\u00eancia econ\u00f4mica. O mundo ainda sofria com os efeitos do\u00a0choque do petr\u00f3leo de 1979, e tanto Reino Unido como EUA enfrentavam a estagfla\u00e7\u00e3o \u2013 uma situa\u00e7\u00e3o em que a infla\u00e7\u00e3o estava mais alta do que o normal e o crescimento econ\u00f4mico, mais baixo. Os dois governantes adotaram, ent\u00e3o, uma agenda de redu\u00e7\u00e3o do papel do Estado, cortando impostos e desregulamentando o mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Na mesma \u00e9poca, o\u00a0Chile tamb\u00e9m iniciava\u00a0a implanta\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas neoliberais, sob o governo militar do ditador Augusto Pinochet. No cen\u00e1rio da pol\u00edtica chilena, destacaram-se jovens economistas apelidados de \u201cChicago Boys\u201d (em refer\u00eancia \u00e0\u00a0escola de Chicago), que seguiam as ideias do economista Milton Friedman. O pr\u00f3prio Friedman chegou a dizer em 1982 que o Chile passava, \u00e0 \u00e9poca, por um \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A chamada agenda neoliberal passou a ser disseminada ao resto do mundo a partir dos governos de Thatcher e Reagan. Em 1989, o brit\u00e2nico John Williamson criou o termo \u201cConsenso de Washington\u201d, que se referia ao conjunto de medidas econ\u00f4micas sugeridas a pa\u00edses em desenvolvimento por \u00f3rg\u00e3os financeiros internacionais como o FMI (Fundo Monet\u00e1rio Internacional) e o Banco Mundial. Os princ\u00edpios que regiam essas orienta\u00e7\u00f5es eram de controle de gastos, abertura de mercados e ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas favor\u00e1veis ao capitalismo de livre mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>As ideias do Consenso de Washington, associadas ao neoliberalismo, foram adotadas em diversos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. O Chile manteve o compromisso com essa agenda, que ganhou espa\u00e7o no Brasil durante os mandatos dos presidentes Fernando Collor de Mello (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Esses governos foram\u00a0marcados por privatiza\u00e7\u00f5es\u00a0e ajustes fiscais. Na Argentina, o presidente Carlos Menem (1989-1999)\u00a0tamb\u00e9m adotou ideias\u00a0de diminui\u00e7\u00e3o do Estado e incentivo ao setor privado.<\/p>\n\n\n\n<p>Foto:&nbsp;Str Old\/Reuters &#8211; 29.07.1999<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/incoming\/imagens\/FHC-e-Menem\/ALTERNATES\/LANDSCAPE_640\/FHC%20e%20Menem\" alt=\"Fernando Henrique Cardoso e Carlos Menem se abra\u00e7am em reuni\u00e3o em Bras\u00edlia em 1999. Eles se abra\u00e7am com um bra\u00e7o e acenam com o outro para a c\u00e2mera.\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Fernando Henrique Cardoso e Carlos Menem se abra\u00e7am em reuni\u00e3o em Bras\u00edlia em 1999<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel ilustrar a ascens\u00e3o do conceito de neoliberalismo no mundo e principalmente na Am\u00e9rica Latina a partir do n\u00famero de vezes em que a palavra foi utilizada de meados do s\u00e9culo 20 para c\u00e1. O gr\u00e1fico abaixo leva em conta men\u00e7\u00f5es ao termo \u201cneoliberal\u201d em publica\u00e7\u00f5es que est\u00e3o na base de dados do Google Books, plataforma que re\u00fane \u00edntegras de obras liter\u00e1rias de fic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">FREQU\u00caNCIA NO VOCABUL\u00c1RIO<\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/incoming\/ub6aij-Uso-do-termo-neoliberal-a-cada-1-bilh%C3%A3o-de-palavras\/ALTERNATES\/FREE_640\/Uso%20do%20termo%20neoliberal%20a%20cada%201%20bilh%C3%A3o%20de%20palavras\" alt=\"Uso do termo neoliberal a cada 1 bilh\u00e3o de palavras. Em espanhol e ingl\u00eas. Espanhol bem acima do ingl\u00eas. Ambos come\u00e7am a aparecer nos anos 1980, crescendo ainda mais nos anos 1990. Nos anos 2000, manuten\u00e7\u00e3o do patamar.\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Nos anos 2000, houve um movimento de aumento da participa\u00e7\u00e3o do Estado nas economias latino-americanas. Mas, desde meados da d\u00e9cada de 2010, as ideias ligadas ao liberalismo econ\u00f4mico voltaram a ganhar for\u00e7a pol\u00edtica na regi\u00e3o. No Brasil,\u00a0a agenda de redu\u00e7\u00e3o do Estado\u00a0passou a ocupar o centro do debate a partir de 2015, firmando-se ainda mais\u00a0no governo de Jair Bolsonaro. Na Argentina, Macri chegou \u00e0 Casa Rosada em 2015 com um\u00a0discurso de liberaliza\u00e7\u00e3o do mercado. No Chile, Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era tamb\u00e9m foi eleito em 2017 com a promessa de\u00a0implanta\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas liberais.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Duas vis\u00f5es sobre o neoliberalismo<\/h2>\n\n\n\n<p>O&nbsp;<strong>Nexo<\/strong>&nbsp;conversou com dois especialistas sobre o uso do termo neoliberalismo e o sentido de utilizar o conceito para avaliar o cen\u00e1rio pol\u00edtico atual.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><strong>Vin\u00edcius M\u00fcller<\/strong>, doutor em hist\u00f3ria econ\u00f4mica e professor do Insper<\/li><li><strong>Pedro Fassoni Arruda<\/strong>, cientista pol\u00edtico e professor da PUC-SP<\/li><\/ul>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Como o termo neoliberalismo \u00e9 usado hoje em dia?<\/h3>\n\n\n\n<p>Vin\u00edcius M\u00fcller&nbsp;Acho que h\u00e1 uma duplicidade. Ele indica uma tend\u00eancia que n\u00f3s vivemos em alguns pa\u00edses nos anos 1980, e que a partir da\u00ed se espalhou para outros lugares, de uma revis\u00e3o das pol\u00edticas que foram adotadas fundamentalmente depois da Segunda Guerra Mundial [1939-1945]. Essas pol\u00edticas [p\u00f3s-guerra] valorizavam a interven\u00e7\u00e3o do Estado na economia, entendendo que o mercado promovia algumas distor\u00e7\u00f5es que seriam minimizadas ou superadas por essa interven\u00e7\u00e3o do Estado. Mas essas pol\u00edticas tamb\u00e9m tinham problemas, que apareceram ao longo dos anos 1970. Trata-se de esgotamento fiscal, infla\u00e7\u00e3o e incapacidade do Estado de, a partir da interven\u00e7\u00e3o, dar conta de seus compromissos fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a cr\u00edtica a essas pol\u00edticas foi feita nos anos 1980, ela apontou para uma retomada daquilo que seria o essencial do liberalismo: diminui\u00e7\u00e3o do Estado na economia, uma cren\u00e7a maior de que o mercado se regularia e a ideia de que a participa\u00e7\u00e3o do Estado geraria mais inefici\u00eancia do que ganho para a sociedade. Isso foi associado fortemente \u00e0s pol\u00edticas de Pinochet no Chile \u2013 e por isso a pol\u00eamica agora, com a revis\u00e3o dessas pol\u00edticas \u2013, de Reagan nos EUA e de Margaret Thatcher na Inglaterra.<\/p>\n\n\n\n<p>O sucesso dos EUA e da Inglaterra foi entendido como sendo n\u00e3o s\u00f3 a retomada do liberalismo ante o modelo adotado depois da Segunda Guerra Mundial, mas como a ascens\u00e3o americana na sua vit\u00f3ria na Guerra Fria [contra a comunista Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica], que transformaria esse modelo neoliberal em uma esp\u00e9cie de receita para os pa\u00edses que vinham enfrentando dificuldades.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que, por um lado, isso apontava para uma moderniza\u00e7\u00e3o da economia, principalmente a partir dos crit\u00e9rios liberais. Por outro lado, era visto como o desmonte de estruturas sociais que eram garantidas pelo Estado e que supostamente equilibrariam as falhas de mercado. Trata-se de leis trabalhistas sendo flexibilizadas, abertura de mercado, redu\u00e7\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o a determinados setores e diminui\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas sociais. Portanto, um lado importante da sociedade entende essa proposta liberal como sendo, na verdade, uma proposta de desmonte da estrutura de prote\u00e7\u00e3o social. Ent\u00e3o o termo neoliberalismo acabou sendo entendido nessa dubiedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedro Fassoni Arruda&nbsp;O termo neoliberalismo \u00e9 uma forma de resgatar os princ\u00edpios do liberalismo cl\u00e1ssico, sobretudo o liberalismo econ\u00f4mico. \u00c9 a defesa de alguns valores identificados com as for\u00e7as do mercado: abertura comercial, privatiza\u00e7\u00f5es de empresas, flexibiliza\u00e7\u00e3o trabalhista, economia de mercado e desregulamenta\u00e7\u00e3o financeira. O neoliberalismo busca diminuir as fun\u00e7\u00f5es do Estado. A\u00ed entram a defesa do Estado m\u00ednimo e a m\u00e3o invis\u00edvel do mercado, contra o excesso de interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas ideias acabam ganhando for\u00e7a com a crise do Estado social europeu, em meados dos anos 1970. Na passagem dos anos 1970 para os anos 1980, com a elei\u00e7\u00e3o de Thatcher no Reino Unido e Reagan nos EUA, essas medidas ganham for\u00e7a e s\u00e3o adotadas com mais radicalidade. Depois, na d\u00e9cada de 1990, atinge tamb\u00e9m pa\u00edses latino-americanos como Brasil, Argentina, Peru e Bol\u00edvia \u2013 no Chile, j\u00e1 vinham sendo adotadas desde o golpe que levou Pinochet ao poder em 1973.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de neoliberalismo \u00e9 mais ligada \u00e0 economia, mas alguns autores, como Mises ou o pr\u00f3prio Hayek, a transformaram num sistema moral. Eles acreditam e identificam a liberdade econ\u00f4mica com a liberdade pol\u00edtica, e entendem que quanto mais liberdade h\u00e1 para os agentes econ\u00f4micos, maior ser\u00e1 tamb\u00e9m a liberdade em sua esfera de a\u00e7\u00e3o individual. Alguns dos fil\u00f3sofos que defendem o liberalismo tamb\u00e9m t\u00eam uma vis\u00e3o de cr\u00edtica ao que consideram como o paternalismo do Estado.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Ainda faz sentido usar o termo neoliberal? Existe alguma diferen\u00e7a entre uso do termo neoliberalismo nos anos 1990 e hoje?<\/h3>\n\n\n\n<p>Vin\u00edcius M\u00fcller&nbsp;Acho que n\u00e3o. Acho que \u00e9 um discurso mais datado, at\u00e9 porque j\u00e1 tem 30 anos. Nestes 30 anos, o que vimos, muito mais do que uma ado\u00e7\u00e3o irrestrita de uma receita neoliberal, foi uma adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, hist\u00f3ricas e sociais dos pa\u00edses. Mesmo que tenhamos um norte mais liberal \u2013 e que, portanto, poderia ser considerado como sendo neoliberalismo \u2013, isso foi t\u00e3o adaptado, relativizado e reestruturado a partir de cada pa\u00eds, que \u00e9 dif\u00edcil falar de maneira gen\u00e9rica em neoliberalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que nos anos 1990 o neoliberalismo era, de um lado, uma euforia um pouco exagerada para aqueles que o defendiam. J\u00e1 o grupo que era contr\u00e1rio, geralmente associado \u00e0 esquerda pol\u00edtica e ideol\u00f3gica, tamb\u00e9m exagerava na sua cr\u00edtica ao identificar que ele seria o imperialismo americano ou coisa parecida. Acho que os dois estavam enganados. Hoje, h\u00e1 um entendimento um pouco mais moderado sobre o que seria esse neoliberalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um reconhecimento de que ele gerou riqueza maior, acesso mais amplo e avan\u00e7o tecnol\u00f3gico. O problema \u00e9 que isso veio acompanhado de crises, porque esse mercado global e mais liberal oscila, de modo que em momentos ele gera crises s\u00e9rias, como a crise de 2008. Ele tamb\u00e9m promove alguma dificuldade relacionada \u00e0 quest\u00e3o da desigualdade. E isso parece ser um ponto importante no debate sobre o neoliberalismo hoje em dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedro Fassoni Arruda\u00a0Sim, faz. \u00c9 uma express\u00e3o que tem bastante for\u00e7a explicativa. \u00c9 uma express\u00e3o que vem sendo utilizada por pesquisadores s\u00e9rios na hist\u00f3ria, na economia, na sociologia, na ci\u00eancia pol\u00edtica, para designar justamente uma determinada vis\u00e3o de mundo, alinhada com a ortodoxia monet\u00e1ria e algumas escolas do pensamento como a de\u00a0Chicago, de Milton Friedman, como a escola de Viena, com Hayek, e outras tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma express\u00e3o que tem, sim, bastante for\u00e7a explicativa, embora muitos daqueles que s\u00e3o considerados como neoliberais n\u00e3o costumam se reivindicar enquanto tal.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 diferen\u00e7a para hoje, basicamente, o conjunto de medidas neoliberais \u00e9 o mesmo. As receitas defendidas s\u00e3o as mesmas: a privatiza\u00e7\u00e3o de empresas, diminui\u00e7\u00e3o do tamanho do Estado, com cortes de impostos e cortes de investimentos em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Nexo Jornal<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manifesta\u00e7\u00f5es no Chile e elei\u00e7\u00f5es na Argentina trazem o conceito de volta ao centro do debate p\u00fablico. 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