{"id":8325,"date":"2021-10-25T00:22:05","date_gmt":"2021-10-25T03:22:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.campal.com.br\/site\/app\/webroot\/blog\/?p=6219"},"modified":"2021-10-25T00:22:05","modified_gmt":"2021-10-25T03:22:05","slug":"como-aproveitar-melhor-a-alta-dos-juros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.campal.com.br\/site\/como-aproveitar-melhor-a-alta-dos-juros\/","title":{"rendered":"Como aproveitar melhor a alta dos juros"},"content":{"rendered":"\n<p>A renda fixa n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o fixa. Alguns t\u00edtulos p\u00fablicos podem entregar lucros estratosf\u00e9ricos, ao menos para quem entra no momento certo. Entenda a montanha-russa dos juros \u2013 e o que fazer para usufruir bem dela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a melhor forma de perder dinheiro no longo prazo: ignorar a \u201crentabilidade real\u201d dos seus investimentos. Rentabilidade real \u00e9 aquela acima da infla\u00e7\u00e3o. Vamos l\u00e1. Se voc\u00ea pegar R$ 100 mil e deixar aplicados at\u00e9 o ano de 2045, a uma taxa de juros equivalente \u00e0 da Selic atual, ter\u00e1 R$ 345 mil daqui a duas d\u00e9cadas e meia.\u00a0E temos a\u00ed um lucro de 245%, certo?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o. Esses R$ 345 mil n\u00e3o s\u00e3o um valor real. S\u00e3o aquilo que os economistas chamam de \u201cvalor nominal\u201d \u2013 um n\u00famero que diz rigorosamente nada sobre o poder de compra que essa grana ter\u00e1 em 2045.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ter alguma no\u00e7\u00e3o disso, voc\u00ea precisa colocar a infla\u00e7\u00e3o na conta. Pense num carro nem muito caro, nem muito barato. Um Jeep Renegade. Hoje, a vers\u00e3o mais barata dele sai por R$ 92 mil. Daqui a um ano, caso a infla\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos 12 meses se mantenha, ele vai custar R$ 100 mil (9% a mais).<br \/>E qual ser\u00e1 a infla\u00e7\u00e3o daqui at\u00e9 2045? Como M\u00e3e Dinah n\u00e3o est\u00e1 mais entre n\u00f3s, n\u00e3o fazemos a mais vaga ideia. O que d\u00e1 para fazer \u00e9 uma proje\u00e7\u00e3o baseada em eventos passados.<\/p>\n\n\n\n<p>Caso o pa\u00eds siga pelos pr\u00f3ximos 24 anos, at\u00e9 2045, com a mesma taxa de infla\u00e7\u00e3o que teve nos \u00faltimos 27 anos (a idade da nossa moeda), o pre\u00e7o de um carro dessa categoria ser\u00e1 um tanto indigesto l\u00e1 na frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Da estreia do real at\u00e9 hoje, passamos pelos governos FHC, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro. Ou seja: estivemos sob virtualmente todas as frequ\u00eancias de onda do espectro pol\u00edtico, cada qual com o seu jeito de lidar com a economia.&nbsp;<a href=\"https:\/\/vocesa.abril.com.br\/economia\/inflacao-de-onde-ela-vem-do-que-se-alimenta-como-se-reproduz\/\">E a infla\u00e7\u00e3o m\u00e9dia no pa\u00eds foi de 7% ao ano<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi muito. \u00c9 por isso que, hoje, voc\u00ea precisa de R$ 63 para replicar o poder de compra que uma nota de R$ 10 tinha em 1994. O ideal para o futuro de longo prazo seria uma infla\u00e7\u00e3o de 2%, a meta tradicional dos pa\u00edses desenvolvidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nem na vida, nem na economia acontece sempre o ideal, ent\u00e3o vamos imaginar que o futuro repetir\u00e1 o passado. E que no museu de grandes novidades do ano de 2045 haver\u00e1 uma infla\u00e7\u00e3o acumulada de 24 anos equivalente \u00e0 dos \u00faltimos 27: 7% ao ano. Nesse cen\u00e1rio, um carro tipo o Renegade de hoje vai custar R$ 466 mil em 2045.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja: os seus R$ 345 mil n\u00e3o seriam o bastante para pagar por um carro que, hoje, caberia no seu or\u00e7amento. Mesmo poupando, voc\u00ea empobrece com o tempo. Fazendo a conta inversa: R$ 345 mil de 2045 equivaleriam a R$ 68 mil de hoje. Bem menos que os R$ 100 mil da aplica\u00e7\u00e3o inicial.<\/p>\n\n\n\n<p>O que vai determinar se voc\u00ea ter\u00e1 ou n\u00e3o um bom p\u00e9-de-meia l\u00e1 na frente \u00e9 garantir uma prote\u00e7\u00e3o efetiva contra a infla\u00e7\u00e3o. A chave a\u00ed \u00e9 a palavra \u201cgarantir\u201d. A\u00e7\u00f5es, por exemplo, podem render mais que a infla\u00e7\u00e3o no longo prazo. E geralmente fazem isso. Mas garantir, de fato, nenhuma garante. Para formar uma reserva polpuda correndo menos risco, faz sentido pensar em algo mais seguro do que a renda vari\u00e1vel, e mais rent\u00e1vel do que o Tesouro Selic (poupan\u00e7a, esquece \u2013 a\u00ed a perda para a infla\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais pesada).<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o significa abrir m\u00e3o do Tesouro Selic, ou dos fundos de baixo risco (e taxa zero, por favor) que s\u00f3 aplicam nessa modalidade. Por raz\u00f5es que vamos ver em detalhes ao longo deste texto, uma parte do seu dinheiro precisa mesmo ficar sujeita \u00e0 renda mais minguada dessa classe<br \/>de investimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se voc\u00ea j\u00e1 tem algum dinheiro para de fato guardar, e sabe que n\u00e3o vai ter de mexer nele nos pr\u00f3ximos muitos anos, vale a pena pensar em outro tipo de t\u00edtulo p\u00fablico para completar o portf\u00f3lio: o Tesouro IPCA+.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele paga a infla\u00e7\u00e3o, seja ela qual for, mais um chorinho at\u00e9 a \u201cdata do vencimento\u201d \u2013 a hora em que o dinheiro que voc\u00ea aplicou volta para a sua conta. As datas de vencimento variam. Hoje, d\u00e1 para investir em IPCA+ que vence em 2026, 2035, 2045\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 o lance de ele pagar a infla\u00e7\u00e3o j\u00e1 garantiria que os seus R$ 100 mil mantivessem o poder de compra intacto. No cen\u00e1rio de infla\u00e7\u00e3o a 7% que a gente colocou aqui, eles se transformariam num montante com valor nominal de R$ 507 mil, mesmo sem o tal chorinho \u2013 o suficiente para comprar o Renegade de 2045 com a mesma facilidade que voc\u00ea teria hoje.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/vocesa.abril.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/SA280_matcapa_11.jpg?quality=70&amp;strip=info\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/vocesa.abril.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/SA280_matcapa_8.jpg?quality=70&amp;strip=info\" alt=\"-\" title=\"SA280_matcapa_8\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>Mas a gra\u00e7a mesmo \u00e9 o chorinho. Em termos t\u00e9cnicos, o nome dele \u00e9 \u201cjuro real\u201d, uma renda al\u00e9m da infla\u00e7\u00e3o. E o juro real que o governo paga no IPCA+ varia de acordo com a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds. Quando est\u00e1 tudo bem, o Tesouro Nacional vende t\u00edtulos IPCA+ pagando um choro meio baixo, coisa de 3% para os t\u00edtulos de prazo mais longo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando est\u00e1 tudo mal, o chorinho cresce. Vai para 4%, 5%. Investir em t\u00edtulos p\u00fablicos, afinal, \u00e9 emprestar dinheiro para o governo. Motivo: em \u00e9pocas de vacas magras, o governo precisa de mais dinheiro para tocar a vida. Ent\u00e3o paga juros mais altos nos t\u00edtulos para conseguir esse dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea aproveita esses momentos, pode se dar bem l\u00e1 na frente. Por um motivo fundamental. Quando voc\u00ea compra um t\u00edtulo que paga o IPCA mais 4% ou 5% at\u00e9 2045, voc\u00ea est\u00e1 fechando um contrato com o Tesouro Nacional. Ele vai te pagar essa taxa na alegria e na tristeza, na sa\u00fade e na doen\u00e7a, por longos 24 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o interessa se, em 2030, o Brasil entrar para a OCDE, se tornar a terceira maior economia do mundo, e virar emissor de uma moeda mais valiosa que o franco su\u00ed\u00e7o \u2013 o que daria ao governo da pr\u00f3xima d\u00e9cada o poder de pegar dinheiro emprestado pagando juros pr\u00f3ximos de zero, como acontece no mundo rico. N\u00e3o importa. Seu juro seguir\u00e1 alto.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, se a economia decair para uma hiperinfla\u00e7\u00e3o de 1.000% ao ano (toc, toc, toc), pelo menos protegido o seu dinheiro fica. A Renegade de 2045 vai custar um zilh\u00e3o de dinheiros, mas voc\u00ea chega em 2045 podendo compr\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed chegamos ao mote deste texto: este \u00e9 um bom momento para comprar IPCA+? De novo, s\u00f3 M\u00e3e Dinah poderia dar uma resposta precisa. Sabemos que as contas p\u00fablicas est\u00e3o pela hora da morte, e que o governo come\u00e7ou a pagar mais para pegar dinheiro emprestado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em novembro de 2019, quando o clima na economia era de otimismo, e \u201cpandemia\u201d era uma palavra que remetia \u00e0 Peste Bub\u00f4nica do s\u00e9culo 13, o governo estava pagando um chorinho de 2,8% no IPCA+ 2045.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a pandemia bateu, em mar\u00e7o de 2020, o juro desse t\u00edtulo subiu para 4,9% (mais a infla\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se esque\u00e7a). Baixada a poeira inicial, ainda em julho do ano passado, caiu para a casa dos 3%. Agora, enquanto este texto era escrito, eles tinham voltado para o patamar do p\u00e2nico: 4,9%.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAh, mas faz assim uma baita diferen\u00e7a tirar 2,8% ou 4,9%?\u201d, algu\u00e9m pode perguntar. Faz diferen\u00e7a, sim. Seus R$ 100 mil, a 2,8% ao ano, chegam em 2045 valendo R$ 197 mil em dinheiro de hoje (de novo: n\u00e3o importa o valor nominal, s\u00f3 o real). A mesma grana a 4,9% se transforma em R$ 316 mil.<br \/>\u00c9 isso, a m\u00e1gica dos juros compostos transforma uma diferen\u00e7a aparentemente p\u00edfia de rentabilidade numa discrep\u00e2ncia monstruosa. R$ 119 mil de diferen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/vocesa.abril.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/SA280_matcapa_12.jpg?quality=70&amp;strip=info\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/vocesa.abril.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/SA280_matcapa_9.jpg?quality=70&amp;strip=info\" alt=\"-\" title=\"SA280_matcapa_9\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>Por sinal: tamb\u00e9m existe outro t\u00edtulo IPCA+, o que paga juros semestrais. Mas eles n\u00e3o trazem a magia dos juros compostos \u2013 o que os torna menos interessantes para formar um p\u00e9-de-meia. E h\u00e1 ainda os prefixados, que pagam um juro maior na lata \u2013 tipo 9,9% at\u00e9 2026. Mas esses s\u00e3o mais especulativos, pois n\u00e3o protegem contra a infla\u00e7\u00e3o. Por isso focamos aqui no IPCA+ \u201cnormal\u201d mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>E est\u00e1 falado. Acabou a mat\u00e9ria. Produ\u00e7\u00e3o, pode subir os cr\u00e9ditos!<\/p>\n\n\n\n<p>Brincadeira. Ainda tem bastante filme pela frente, e com alguns plot twists.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Breve hist\u00f3ria da nossa economia<\/h3>\n\n\n\n<p>Plot twist n\u00famero um: a proje\u00e7\u00e3o l\u00e1 do comecinho do texto foi injusta. A Selic hoje remunera abaixo da infla\u00e7\u00e3o, mas essa n\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o trivial. O normal \u00e9 que ela pague mais. \u00c0s vezes, bem mais. H\u00e1 dez anos, em 2011, t\u00ednhamos uma infla\u00e7\u00e3o de 6,5% contra uma Selic de 11%. Ou seja: um juro real de grossos 4,5% ao ano. H\u00e1 20 anos, eram 10%.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, mal valia a pena abrir neg\u00f3cios no pa\u00eds. \u00c9 t\u00e3o dif\u00edcil montar uma empresa que d\u00ea 10% de lucro al\u00e9m da infla\u00e7\u00e3o que, para quem tinha grana, era melhor deixar tudo em renda fixa e ir morar na praia. E muita gente com bala na agulha fazia exatamente isso. Eram os \u201crentistas\u201d \u2013 o pessoal de grana que preferia mamar nos juros do Estado a dar \u00e0 luz investimentos produtivos.E o problema era \u00f3bvio: com menos neg\u00f3cios abrindo, surgem menos empregos. E quanto menos empregos, mais pobreza.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas por que, ent\u00e3o, isso existia? Para \u201cproteger os rentistas\u201d, como se dizia nos Centros Acad\u00eamicos da \u00e9poca? N\u00e3o. Era para evitar infla\u00e7\u00e3o. Juro alto \u00e9 o rem\u00e9dio mais cl\u00e1ssico contra aumentos de pre\u00e7os. Eles reduzem o consumo (pagar a prazo fica bem mais caro). Com menos consumo, a press\u00e3o pela alta de pre\u00e7os arrefece. O outro lado dessa moeda \u00e9 que o PIB fica com o freio de m\u00e3o puxado.<\/p>\n\n\n\n<p>Por essas, criticava-se a pol\u00edtica de Henrique Meirelles, o mandachuva da economia no governo Lula (ainda que na pele de presidente do Banco Central, n\u00e3o na de ministro da Fazenda).<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2006, a infla\u00e7\u00e3o tinha ca\u00eddo para \u00f3timos e administr\u00e1veis 3% ao ano. Mas a Selic estava em 13,25%. Juro real de 10%\u2026 P\u00f4, Meirelles. Esse era o tamanho do medo que o presidente do BC tinha da infla\u00e7\u00e3o. Um zelo aparentemente excessivo que causava rusgas com o ministro da Fazenda da \u00e9poca, Guido Mantega. Guido queria baixar os juros para estimular a economia. Mas tinha pouco poder dentro do governo Lula. E o juro real seguiu alto at\u00e9 o in\u00edcio do mandato de Dilma Rousseff, que marcaria tamb\u00e9m a despedida de Meirelles.<\/p>\n\n\n\n<p>Dilma manteve Guido Mantega na Fazenda, e deu uma empoderada no ministro, j\u00e1 que tamb\u00e9m n\u00e3o era exatamente f\u00e3 do rentismo. O terreno agora estava livre para Mantega implodir os juros. N\u00e3o se tratava do melhor momento, diga-se. A infla\u00e7\u00e3o vivia uma tend\u00eancia de alta naquele 2011. Mas a marretada veio mesmo assim. Mantega orquestrou uma baixa paulatina com o Banco Central. E em 2013 o juro real baixou para sua m\u00ednima hist\u00f3rica at\u00e9 ent\u00e3o: 1,25% (infla\u00e7\u00e3o de 5,91% versus Selic de 7,16%).<\/p>\n\n\n\n<p>Foi bom para o PIB. O pa\u00eds viveu um crescimento acumulado de 7% nesse intervalo. Mas\u2026 Parece que a cautela \u00e0 la Meirelles l\u00e1 de tr\u00e1s fazia sentido: a infla\u00e7\u00e3o, vitaminada pelo juro baixo, passou a subir. Fecharia 2015 em 10,67%. A\u00ed tome Selic alta de novo: no mesmo ano de 2015, ela chegaria a 14,25%.<\/p>\n\n\n\n<p>A combina\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os em alta com juros na estratosfera travou a economia: queda de 3,5% naquele ano, a maior em um quarto de s\u00e9culo. Cen\u00e1rio que, no campo pol\u00edtico, pavimentou o caminho para o impeachment de Dilma Rousseff. Em 2016, Michel Temer chamaria Meirelles de novo para liderar a economia, agora no papel de ministro da Fazenda. Um ano depois, a infla\u00e7\u00e3o cairia para 2,95%.<\/p>\n\n\n\n<p>Meirelles aproveitou o momento de baixa press\u00e3o inflacion\u00e1ria para ir reduzindo a Selic. E entregou a economia para Paulo Guedes em 2018 com um juro real de m\u00f3dicos 2,6% (num civilizado cen\u00e1rio de infla\u00e7\u00e3o de 3,75% versus Selic de 6,40%) Guedes surfou a onda de bonan\u00e7a. No final de 2019, entregaria um juro real de 0,09% (IPCA 4,40% X 4,31% Selic). Ironicamente, o ministro ultraliberal tornaria realidade um sonho da esquerda: acabou com o rentismo \u2013 ainda que o trabalho de deixar a cama pronta tenha sido de Meirelles.<\/p>\n\n\n\n<p>Seja como for, essa nova realidade macroecon\u00f4mica encheu os olhos do mercado. 2020 estava chegando, e com ele viria uma nova era de ouro para a economia, com um bull market de propor\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, acreditavam. Mas, em vez do touro, o s\u00edmbolo da bolsa em alta, o que veio foi outra entidade: o Sars-Cov-2.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a pandemia, n\u00e3o tinha jeito: a economia precisava de est\u00edmulo. A Selic caiu para 2%. Como 2020 terminou com 4,52% de infla\u00e7\u00e3o, o juro real fechou em -2,52%. Pela primeira vez desde o dia em que as caravelas de Cabral ancoraram no litoral sul da Bahia, o Brasil tinha juros reais negativos. E quem mais gostou da Selic subterr\u00e2nea foi a pr\u00f3pria infla\u00e7\u00e3o, que agora est\u00e1 em 9% (a alta dos \u00faltimos 12 meses), a um passo da linha vermelha dos dois d\u00edgitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para combat\u00ea-la, a equipe econ\u00f4mica passou a subir a Selic. Hoje ela est\u00e1 em 5,25%. E o mercado prev\u00ea uma Selic de 7,50% at\u00e9 o fim do ano. Com os juros em alta, mais hora menos hora a infla\u00e7\u00e3o baixa. E os juros reais negativos, como aquele que fez seus R$ 100 mil l\u00e1 do in\u00edcio do texto se transformarem em R$ 68 mil, deixam de existir.<\/p>\n\n\n\n<p>Em condi\u00e7\u00f5es ideais de temperatura e press\u00e3o econ\u00f4mica, um bom juro real \u00e9 aquele que o Brasil tinha alcan\u00e7ado em 2019: um trisquinho acima da infla\u00e7\u00e3o. Caso esse cen\u00e1rio volte um dia (toc, toc, toc), o IPCA+ deixar\u00e1 de pagar os quase 5% que est\u00e1 pagando hoje. Vai voltar \u00e0 casa dos 2%.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o o lance \u00e9 sair correndo para comprar agora, certo? Calma. Se o cen\u00e1rio se deteriorar, o governo ter\u00e1 de lan\u00e7ar t\u00edtulos que pagam IPCA mais 7%, IPCA mais 9%\u2026 E a\u00ed temos um problema, que mostra exatamente onde est\u00e1 o risco do IPCA+. Vamos a ele.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">IPCA+ Marea Turbo<\/h3>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea colocou aqueles seus R$ 100 mil num t\u00edtulo p\u00fablico que vence em 2045. Legal. Mas e se rolar alguma emerg\u00eancia e voc\u00ea precisar desse dinheiro? Voc\u00ea vai l\u00e1 e saca? N\u00e3o. Esse conceito n\u00e3o existe no mundo dos t\u00edtulos. Voc\u00ea precisa vender a coisa, como se estivesse vendendo um carro para levantar uma grana. A boa not\u00edcia: da mesma forma que existe um mercado pujante para carros usados, tamb\u00e9m h\u00e1 um para quem quer vender \u201ct\u00edtulos usados\u201d \u2013 \u00e9 o governo mesmo quem compra de volta, para revender a outros interessados (geralmente bancos).<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o d\u00e1 para saber o quanto o governo vai te pagar. O pre\u00e7o ser\u00e1 o de mercado, o tanto que os tais dos interessados est\u00e3o dispostos a pagar. E esse montante varia bem.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos ver dois cen\u00e1rios. Primeiro, um negativo. Voc\u00ea compra hoje, por R$ 1 mil, um t\u00edtulo IPCA+ que paga 4% de juro real, com vencimento no dia 15 de maio de 2035. Se voc\u00ea segurar at\u00e9 o vencimento, ganha R$ 1.731 em valores de hoje. 73% de rendimento real.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed a economia d\u00e1 uma degringolada, o governo passa a precisar de mais dinheiro, mais r\u00e1pido, e lan\u00e7a um novo t\u00edtulo IPCA+ com vencimento em maio de 2035, pagando agora 6%. Guardando esse at\u00e9 o vencimento, quem compra tira R$ 2.260. 126% de rendimento real. O que acontece, ent\u00e3o, se voc\u00ea quiser vender o seu t\u00edtulo, que s\u00f3 vai render 73%? A real \u00e9 que ele vira um Marea Turbo \u2013 voc\u00ea vai ter de vender por menos do que pagou.<\/p>\n\n\n\n<p>A matem\u00e1tica \u00e9 a seguinte: s\u00f3 vai aparecer comprador se o seu t\u00edtulo Marea Turbo render ao comprador os mesmos 126% do novo e possante IPCA+6% que o governo lan\u00e7ou. Mas d\u00e1 para fazer isso. Seu t\u00edtulo, para todos os efeitos, \u00e9 um papel que custou R$ 1.000, e que te concede o direito de receber R$ 1.730 no dia 15 de maio de 2035.<\/p>\n\n\n\n<p>Para aumentar artificialmente a rentabilidade dele, basta baixar o pre\u00e7o inicial. O mercado vai fazer as contas: R$ 1.730 equivalem a R$ 1.000 mais 73%. Legal. Mas olha s\u00f3: R$ 1.730 tamb\u00e9m equivalem a R$ 765 mais 126%, que \u00e9 a renda do t\u00edtulo novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para que o seu t\u00edtulo velho ofere\u00e7a o mesmo rendimento, ele precisa valer R$ 765. Esse passa a ser o pre\u00e7o de mercado do seu t\u00edtulo. Se voc\u00ea quiser vender, \u00e9 isso que v\u00e3o pagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea perde uma bolada de 23%. Eis o problema do IPCA+. Ele rende mais do que o Tesouro Selic. \u00c0s vezes, bem mais. Se voc\u00ea tiver de vender antes do vencimento, por\u00e9m, pode se complicar.<\/p>\n\n\n\n<p>E nisso temos nosso segundo plot twist: d\u00e1, sim, para perder dinheiro com t\u00edtulos p\u00fablicos. Muito dinheiro. \u00c9 o lado vari\u00e1vel da renda fixa.<br \/>Por isso \u00e9 sempre necess\u00e1rio ter uma reserva de emerg\u00eancia em Tesouro Selic. Ele \u00e9 pobrezinho, mas n\u00e3o te deixa na m\u00e3o. Voc\u00ea nunca ter\u00e1 de vend\u00ea-lo por um pre\u00e7o menor do que aquele que pagou. E o mais \u00f3bvio: voc\u00ea precisa ter disciplina para saber que n\u00e3o, n\u00e3o vai precisar do dinheiro que colocou num IPCA+ antes da data de vencimento.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/vocesa.abril.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/SA280_matcapa_13.jpg?quality=70&amp;strip=info\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/vocesa.abril.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/SA280_matcapa_10.jpg?quality=70&amp;strip=info\" alt=\"-\" title=\"SA280_matcapa_10\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">IPCA+ Porsche 911<\/h3>\n\n\n\n<p>R<\/p>\n\n\n\n<p>iscos \u00e0 parte, voc\u00ea tamb\u00e9m pode ter um final feliz se tiver de vender antes. Porque nem todo t\u00edtulo vira um Marea Turbo. Dependendo de como estiver a economia, at\u00e9 o seu t\u00edtulo IPCA+4% pode virar um Porsche 911 com motor refrigerado a ar \u2013 algo que s\u00f3 valoriza no mercado de usados.<br \/>Para que essa transmuta\u00e7\u00e3o de Marea para Porsche ocorra, o governo precisa estar bem na fita, de modo que n\u00e3o tenha de vender o almo\u00e7o para comprar a janta. Assim, ele ter\u00e1 como levantar dinheiro pagando juros reais mais baixos. 2%, digamos.<\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed ele s\u00f3 vai lan\u00e7ar t\u00edtulos que pagam IPCA mais 2%. Essa ser\u00e1 a maior renda poss\u00edvel dentro dessa classe de t\u00edtulos. E a\u00ed, maravilha: o seu de 4% vira ouro.<\/p>\n\n\n\n<p>O valor final desses t\u00edtulos de 2%, l\u00e1 em 2035, ser\u00e1 de R$ 1.320, contra aqueles R$ 1.730 do seu. Se voc\u00ea quiser vender, o mercado estar\u00e1 disposto a pagar caro por ele. Voc\u00ea consegue vender o t\u00edtulo por um valor bem maior do que pagou.<\/p>\n\n\n\n<p>Dependendo de como estiver o mercado, haver\u00e1 quem pague coisa de R$ 1.300 pelo direito de ganhar R$ 1.730 l\u00e1 na frente, Tudo isso porque a diferen\u00e7a entre R$ 1.300 e o valor final do t\u00edtulo, nesse caso, ser\u00e1 de 33% em 14 anos. Numa realidade na qual o m\u00e1ximo que o mercado oferece para esse prazo \u00e9 32%, o comprador j\u00e1 sai no lucro. E voc\u00ea, mais ainda. Ter\u00e1 vendido por R$ 1.300 algo que acabou de comprar por R$ 1.000. Um lucro de 30%, que pode vir em quest\u00e3o de meses. Acontece na vida real.<\/p>\n\n\n\n<p>Para quem entra no IPCA+ com a ideia de fazer dinheiro r\u00e1pido, ent\u00e3o, o momento certo de entrar \u00e9 aquele em que as taxas est\u00e3o caindo. E quando as taxas come\u00e7am a cair? Quando a Selic cai? N\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 quando a \u201cSelic do futuro\u201d cai. Isso existe \u2013 n\u00e3o no governo, mas no mercado. A leitora e o leitor mais inteirados conhecem: s\u00e3o os contratos de \u201cDI Futuro\u201d, que rolam na bolsa. Trata-se de apostas. Se a Selic subir, voc\u00ea ganha; se cair, voc\u00ea perde. Ou vice-versa: voc\u00ea que manda.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, as apostas ali s\u00e3o para Selics altas l\u00e1 na frente: 8,4% para 2023, 9,5% para 2025\u2026 (isso muda todo dia; para ver em tempo real, basta dar um Google em \u201cDI Futuro\u201d). Em 2019, a bola de cristal era bem mais de boa: 5,9% para 2023, 6,6% para 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que o IPCA+ paga hoje um pr\u00eamio maior que o de 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>O mercado achava que a Selic do futuro n\u00e3o seria t\u00e3o alta assim, ent\u00e3o n\u00e3o havia por que o governo pagar um absurdo de juros nos t\u00edtulos de longo prazo: o mercado aceitaria menos, afinal. Em 2021, isso mudou de figura. DI Futuro l\u00e1 no alto, t\u00edtulos IPCA+, idem, com o governo lan\u00e7ando t\u00edtulos novos que pagam taxas cada vez mais altas: 3,5%, 4,0%, 4,5%\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea prestou aten\u00e7\u00e3o ao que dissemos nos \u00faltimos par\u00e1grafos, j\u00e1 matou a charada: quem comprou IPCA+ h\u00e1 alguns meses est\u00e1 perdendo dinheiro. Se voc\u00ea investiu R$ 1.000 em t\u00edtulos com vencimento em 2035 no final do ano passado e teve de vender em agosto, recuperou s\u00f3 R$ 880. Perda de 12%. No IPCA+ com vencimento em 2045, o rombo foi maior ainda: 20%.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 a l\u00f3gica: quanto maior a taxa dos t\u00edtulos novos, menor o valor de mercado dos t\u00edtulos que voc\u00ea tiver na m\u00e3o. E vice-versa.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00faltimo vice-versa de grande porte rolou h\u00e1 pouco tempo. A oportunidade come\u00e7ou em setembro de 2018, perto das elei\u00e7\u00f5es presidenciais. Os DIs futuros para dali a tr\u00eas, quatro anos estavam l\u00e1 no alto \u2013 nos mesmos n\u00edveis de hoje, dada a instabilidade natural de qualquer elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Baixada a poeira, e com o mercado depositando um caminh\u00e3o de esperan\u00e7a na pol\u00edtica de Paulo Guedes, a bolsa de apostas do DI futuro come\u00e7ou a apontar para baixo. As taxas dos t\u00edtulos foram caindo. E o valor deles, aumentando.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem comprou IPCA+2045 em setembro de 2018 e decidiu vender no final de 2019, um pouco antes da pandemia e dos desastres governamentais que sucederam-se dali em diante, embolsou um lucro de 132%.<\/p>\n\n\n\n<p>Exato: 132%. Em pouco mais de um ano, cada R$ 1.000 investidos ali se transformaram em R$ 2.232. Bem-vindo, de novo, ao lado vari\u00e1vel da renda fixa. S\u00f3 que desta vez pelo prisma positivo da variabilidade. O Ibovespa, igualmente favorecido pelo bom humor da \u00e9poca, subiu tamb\u00e9m. S\u00f3 que menos: 44%.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Longu\u00edssimo prazo<\/h3>\n\n\n\n<p>Tentar achar essas janelas de oportunidade para ganhar com o IPCA+ pode ser algo tentador. Se fosse simples, por\u00e9m, nenhum brasileiro capaz de operar o site do Tesouro Direto jamais precisaria trabalhar. \u00c9 imposs\u00edvel saber quando, exatamente, os DIs futuros v\u00e3o come\u00e7ar a cair de forma consistente, por meses a fio. Ou mesmo SE isso vai acontecer. Tudo \u00e9 poss\u00edvel. Ponto.<\/p>\n\n\n\n<p>Para quem pretende investir com disciplina, e foco cerrado no longo prazo, \u00e9 diferente. D\u00e1, sim, para planejar um ganho maior no futuro. \u00c9 improv\u00e1vel que a era do rentismo, com o Tesouro Selic pagando juros reais de 10%, volte um dia. Sob quaisquer circunst\u00e2ncias. A esquerda e a direita podem discordar em tudo, mas as duas correntes de pensamento abominam os juros estratosf\u00e9ricos.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante disso, t\u00edtulos que pagam mais de 4% de juro real garantido por mais de 20 anos s\u00e3o, sim, um dos melhores investimentos poss\u00edveis para quem pensa numa aposentadoria confort\u00e1vel l\u00e1 na frente. O lance \u00e9 que s\u00f3 haver\u00e1 t\u00edtulos assim no mercado em tempos de vacas magras, como agora. Se tudo der certo com o pa\u00eds nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, ser\u00e1 dif\u00edcil ver taxas dessas de novo. Que elas desapare\u00e7am logo. E que voc\u00ea tenha a disciplina necess\u00e1ria para poder aproveit\u00e1-las \ud83d\ude09<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/vocesa.abril.com.br\/financas-pessoais\/como-aproveitar-melhor-a-alta-dos-juros\/\">Voc\u00ea SA<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A renda fixa n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o fixa. 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