Os BRIC – o acrónimo para Brasil, Rússia, Índia e China – continuam a ser um tema fraturante. “As expetativas sobre a sua morte próxima são manifestamente exageradas”, diz-nos Oliver Stuenkel, professor na Fundação Getulio Vargas, em São Paulo, adaptando um célebre dito do escritor Mark Twain. Enquanto Ruchir Sharma, diretor da área de Mercados Emergentes e Macroeconomia global da Morgan Stanley, é perentório: “Na realidade, nunca pertenceram ao mesmo acrónimo”. O especialista indiano vai mais longe: nunca foram e nunca serão um bloco nem geopolítico nem económico.
Os rumores espalharam-se rapidamente neste ano do Dragão de água, fazendo jus à imprevisibilidade e carga de stresse que acompanha o personagem mitológico do zodíaco chinês: risco de um rebentar de “bolhas” na China e no Brasil, ameaça do Brasil e da Rússia se tornarem prisioneiros da “doença holandesa” dependendo exageradamente da euforia em torno das exportações de recursos energéticos, e da Índia “contaminar” toda a economia da Ásia do sudeste, como alertou este mês o Banco Asiático de Desenvolvimento.
Olhando os números divulgados em outubro pelo Fundo Monetário Internacional para este conjunto que deveria ser o novo farol sem mácula, as desilusões são muitas: o trambolhão monumental do Brasil vai continuar, de 7,5% em 2010 para uma previsão de 1,5% este ano; a Rússia abranda de 4,3% para 3,8% no mesmo período; a Índia também dará um trambolhão de 10,1% para 4,9%; e o crescimento na China descerá, este ano, abaixo do limiar político dos 8%, com as estimativas a variar entre 7,7% e 7,8%, depois de ter crescido 10,4% há dois anos. Nas economias emergentes, crescimentos abaixo de 6% são considerados como alerta laranja.
Mas Ruchir Sharma e Frederico Gonzaga Junior, da Universidade Federal de Minas Gerais, não creem que haja risco de um rebentar de “bolhas” na China e no Brasil, apesar da inacreditável especulação imobiliária que torna a China como a pátria das cidades-fantasma, dos blocos de condomínios vazios e dos projetos megalómanos de entretenimento (como o da foto) inundados de ervas daninhas. Quanto à “doença holandesa”, Sharma pressente alguns sinais de uma euforia do tipo dot-com nos exportadores que vivem de petrodólares ou de euros do gás, como o Brasil com a euforia do pré-sal (e o filão da partilha de royalties em perspetiva por parte dos três estados brasileiros costeiros) e a Rússia que continua a ser o maior exportador mundial de crude e de gás natural, mas a situação ainda não é alarmante. Por seu lado, o consultor Ashutosh Sheshabalaya, da India Advisory, garante que “a Índia está mais bem posicionada do que a própria China para enfrentar a crise financeira global”.
Oliver Stuenkel conclui que a pior dor de cabeça para os BRIC, no curto prazo, não vem de dentro, vem da evolução da crise na Europa e nos Estados Unidos.
Cisnes cinzentos
A Grande Recessão surgida em 2007 ofereceu ao grupo uma projeção geopolítica assinalável, que fez definitivamente mossa no G7 das sete economias desenvolvidas. Mas a continuação desta crise sistémica para além do que se previa, pode retirar o grupo do pedestal. “Três das grandes economias dos BRIC, nomeadamente o Brasil, a Índia e a China, são fontes de eventos de alto risco, são potencialmente ‘cisnes cinzentos'”, diz-nos o economista russo Constantin Gurdgiev, um dos blogueiros mais ativos na área da economia. “Cisne cinzento” é um acontecimento que pode ser antecipado, mas que é considerado improvável, e que a acontecer tem um impacto profundo. A cor cinzenta pretende diferenciar do “cisne negro”, um conceito inventado pelo ensaísta Nassim Taleb para definir acontecimentos totalmente imprevisíveis.
O livro de Sharma, publicado este ano, provocou inclusive um “choque” na elite dos BRIC. Em “Breakout Nations: In Pursuit of the New Economic Miracles”, o indiano alega que o foco geopolítico deve virar-se, agora, para as próximas economias emergentes que chegarão aos 2 biliões de dólares de PIB e que, surpreendentemente, poderão brotar das grandes democracias muçulmanas. Esses novos atores no palco mundial não se apressam em ser “a próxima China”, diz Sharma.
Ideia concorrente no “Sul”
O célebre acrónimo criado há onze anos pelo britânico Jim O’Neill, da Goldman Sachs, para o grupo formado pelo Brasil, Rússia, Índia e China, pretendia chamar à atenção para quatro grandes economias emergentes que iriam marcam o início do século XXI. O acrónimo, depois, transformar-se-ia num clube político, numa primeira cimeira, em 2009, em Ecaterimburgo, sem que os fundadores tivessem convidado O´Neill para a boda a quatro, e, em 2011, juntou a África do Sul, passando de BRIC a BRICS, para espanto do consultor britânico.
Em virtude da heterogeneidade de especializações económicas e dos sistemas políticos no seio do grupo inventado por O´Neill, Ashutosh Sheshabalaya é partidário de um alinhamento geopolítico diferente, em que a Índia, o Brasil e a África do Sul se complementam como potências do Índico e do Atlântico Sul. O grupo já tem um acrónimo em inglês – IBSA – e pretende ser “um eixo de economias que querem e podem ser porta de entrada para três mercados continentais do futuro – Ásia, África e América Latina”, diz-nos o consultor indiano.
Provavelmente aplicar a célebre frase de Mao Tsé-Tung sobre os tigres de papel (então os Estados Unidos) aos BRIC é um exagero, mas as dúvidas acumulam-se sobre se será o bloco dominante do futuro, mesmo com uma China destacada como segunda economia do mundo.
NOTAS SOLTAS
BRASIL
Vive uma euforia do filão do petróleo a extrair do pré-sal que tem gerado uma espécie de “bolha” parecida com a das dot-com, sobretudo nos estados de Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo. O economista brasileiro Bresser-Pereira acha que o país está contaminado com a “doença holandesa”. Mas não é opinião unânime. Todos recomendam, no entanto, maior diversificação. Os últimos números foram um “choque” – a taxa de crescimento foi de 0,6% no terceiro trimestre de 2012 em relação ao anterior.
RUSSIA
Para alguns é o “pior caso” no grupo. O poder autocrático e o domínio de 20% da economia pelos multimilionários são barreiras sistémicas à projeção russa, diz Ruchir Sharma. No entanto, é dos quatro o que tem um nível de vida mais elevado, que deverá subir para mais de 50% do nível médio da zona euro no próximo ano. Além do mais tem um ponto forte, sublinha Constantin Gurdgiev – tem o maior excedente externo, de 3,4%, superior ao da China (2,6%), e tem as contas públicas equilibradas. Dispõe, por isso, de recursos para financiar reformas. A dependência dos preços do petróleo e do gás natural é um calcanhar de Aquiles.
INDIA
Ruchir Sharma acha que este país tem 50% de probabilidades de se transformar numa nação que se vai destacar no futuro. O mesmo otimismo é partilhado por Ashutosh Sheshabalaya que vê na Índia um papel importante num eixo entre o Índico e o Atlântico Sul. Um dos problemas atuais é a loucura em torno da importação de ouro, além do mais a preços elevados, o que, juntamente com o petróleo, provoca um défice externo preocupante. As importações de ouro representam 80% do défice externo. O investimento em ouro é encarado como a melhor segurança social.
CHINA
Tem de fazer a transição prometida pelo 18º Congresso do Partido Comunista, de um modelo mercantilista para uma sociedade com níveis mais altos de consumo. Atingiu mais de 50% de urbanização e a sua liderança tem consciência que a especulação imobiliária, o uso da terra como colateral financeiro e a exportação têm os dias contados como fatores milagreiros. Ruchir Sharma acha que o país não vai “seguir o estado de negação” que foi típico do Japão nos anos 1990. O que reduz a probabilidade de colapso para uma situação de estagnação. Para o FMI só a China pertence ao clube das cinco economias “sistémicas”, juntamente com os EUA, Zona euro, Japão e Reino Unido.
Fonte: Administradores