A economia brasileira cresceu 1% em 2017. Isso significa que a soma de todos os bens e serviços produzidos durante o ano passado foi 1% maior do que o total de 2016.
O crescimento positivo do PIB é registrado depois de dois anos de queda. E é o maior aumento anual do Produto Interno Bruto desde 2013. O resultado foi divulgado na manhã de quinta (1) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

R$ 6,6 trilhões Produto Interno Bruto em 2017
O que influenciou o resultado
Existem duas maneiras de se medir o PIB: somando tudo que o país produz ou somando tudo o que o país demanda. Pelo chamado lado da oferta, o IBGE soma o que foi produzido pela agropecuária, indústria e serviços. Do outro lado vêm gastos do governo, investimentos e consumo das famílias.
E o resultado de 2017 teve um destaque em cada lado. Na oferta, com a estagnação da indústria e o pequeno crescimento dos serviços, a supersafra fez a diferença. O setor agropecuário do Brasil produziu 13% a mais em 2017 do que em 2016.
O LADO DA OFERTA

Pelo lado da demanda, a boa notícia ficou por conta do aumento do consumo das famílias, que avançou 1%. Parece pouco, mas os gastos das pessoas comuns têm muito peso no cálculo do PIB – representam cerca de 65% do lado da demanda. E há algumas explicações para as famílias terem gastado mais em 2017.
O primeiro ponto é que o consumo cresceu comparado a 2016, um ano que foi muito ruim. O desemprego, um dos maiores problemas da recessão brasileira, se não diminuiu, parou de aumentar em 2017.
Além disso, a inflação e os juros baixos também facilitam o consumo. Houve ainda medidas de incentivo do governo, com a liberação de recursos do FGTS (https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/08/07/Qual-o-resultado-do-programa-de-saques-do-FGTS) e do PIS/Pasep (https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/01/21/Quais-as-origens-do-PISPasep-que-Temer-usa-para-aquecer-aeconomia), que injetaram dinheiro na economia.
O LADO DA DEMANDA

Os outros dois componentes do PIB pelo lado da demanda recuaram em 2017. O governo, com sérios problemas nas contas e com o teto no Orçamento, gastou 0,6% menos no ano. O investimento caiu 1,8%.
Investimentos: notícia boa e notícia ruim
Um dos componentes do PIB que os economistas olham com mais atenção é a chamada “Formação Bruta de Capital Fixo” ou simplesmente os investimentos. É investimento todo gasto que serve para aumentar a produção no futuro. Ou seja, é dinheiro investido hoje que vai aumentar o PIB no futuro.
A chamada taxa de investimentos, que mede a participação dessa categoria no PIB, está no nível mais baixo em pelo menos 21 anos – a série atual do IBGE começa em 1996. Os investimentos, que em 2013 foram de quase 21% do PIB, representaram apenas 15,6% do total em 2017.
MENOS APOSTA NO FUTURO

Mas há um alento. O resultado dos dois últimos trimestres indicam que o pior momento já passou – e ele foi no primeiro semestre de 2017, quando o valor trimestral chegou a ser quase 30% menor que o pico, no fim de 2013. Em 16 trimestres, foram 15 quedas. Isso significa que trimestre após trimestre o Brasil investiu menos até a aparente virada nos dois últimos resultados, como mostra o gráfico.
PEQUENA RETOMADA

O resultado trimestral e a recuperação lenta
O resultado do PIB anual, em parte, já era previsto pelos economistas porque já estavam disponíveis os números dos três primeiros trimestres do ano. A novidade é o resultado do 4º trimestre.
Comparado ao trimestre anterior, a economia brasileira cresceu 0,1% entre outubro e dezembro. O crescimento do terceiro com relação ao segundo já havia sido baixo, 0,2%, quase uma estabilidade. Os dois dados consolidam a ideia de que a recuperação do Brasil é lenta.
Apesar da melhora recente, a economia ainda está bem abaixo do patamar de antes da crise. Segundo o Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos) da Fundação Getúlio Vargas, a recessão na economia brasileira começa no 2º trimestre de 2014 – a despeito de duas altas tímidas no 3º e 4º trimestre daquele ano.
A recessão acabou, oficialmente, no último trimestre de 2016, mas apenas parte da queda já foi compensada. O gráfico abaixo mostra a variação entre a produção do trimestre indicado e o trimestre imediatamente anterior ao início crise, o 1º de 2014. O PIB trimestral divulgado nesta quinta (1º) é 6,3% menor do que o último resultado antes da crise.
TRAJETÓRIA

O que é importante observar nesse resultado: a quase estabilidade no segundo semestre ou o crescimento no ano?
SILVIA MATOS O que caracteriza 2017 é que foi o ano de saída da recessão, mas ainda distante de recuperar o que perdeu. Perdemos muito, só vamos recuperar lá para 2022. O resultado do quarto trimestre ficou abaixo do que a maioria esperava, mas a gente já tinha uma visão mais cautelosa. Era normal que o consumo das famílias desse uma desacelerada no fim do ano, depois de ter sido bem forte no segundo e no terceiro – sob efeito de medidas mais temporárias. A demanda doméstica está vindo, o resultado ficou um pouco prejudicado porque a comparação foi com um consumo bastante aquecido, aí parece estagnado. Por outro lado, é preciso separar a história do PIB durante o ano. Tem o PIB com o agro e sem o agro. Se por um lado agro foi o grande responsável pelo crescimento do primeiro semestre, no segundo atrapalhou um pouco. Então a medida do PIB sem agro mostra um equilíbrio maior entre os trimestres. O total cresceu 1%, sem agro fica 0,3%, com um crescimento inclusive mais forte no segundo semestre.
O que sustenta as projeções de crescimento de 3% em 2018?
SILVIA MATOS Nossa projeção é de 2,8% de crescimento para o ano. Esse número viria da manutenção da aceleração do consumo, da melhora das condições de crédito e a melhora do emprego. A previsão é que termine o ano com uma taxa média de desemprego ainda alta, uma média de 12%, 0,7 ponto percentual menor que 2017. Mas com um aumento no número de pessoas empregadas e a melhora do emprego formal. Ano passado a melhora veio da informalidade, para 2018 pode ser diferente. Com isso o investimento vem, pode crescer cerca de 6%, favorecido também pelo carregamento estatístico – se o investimento ficar parado no mesmo valor, terá um crescimento de 2,5%, porque a média de 2017 ainda é dura. Por outro lado, bastante coisa pode atrapalhar. O primeiro semestre não deve ter surpresas, está mais garantido. Depois depende da eleição e do cenário externo. Se o cenário político ficar muito tumultuado, isso gera incerteza e pode atrapalhar decisões de investimentos. Se houver aumento de juros lá fora também atrapalha. De qualquer maneira, parte do PIB 2018 já está dado, não acho que vá haver um desastre.
Fonte: Nexo