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10 Lições surpreendentes dos negócios indianos: o que o Brasil pode aprender?

No início deste ano de 2023, tive o privilégio de realizar um antigo sonho de conhecer a Índia. Inspirado por essa experiência única, decidi compartilhar algumas das lições aprendidas durante essa viagem fascinante. É importante ressaltar que este material não pretende abordar todas as nuances e detalhes do país, dada a limitação de tempo, espaço e perspectiva. A Índia é vasta, sua cultura é profundamente rica e nos oferece uma infinidade de ensinamentos.

A Índia é conhecida por formar e exportar engenheiros e outros talentos para todo o mundo. O país abriga empresas líderes em diversos segmentos e atualmente ocupa a 7ª posição entre as maiores economias do mundo. No entanto, é surpreendente perceber que o poder de compra da moeda indiana, a Rúpia, é baixíssimo. Durante nossa estadia, cada real brasileiro era equivalente a aproximadamente ₹ 15. Essa aparente “pobreza” generalizada parece ser resultado de falhas estruturais que abordaremos adiante.

Em comparação, na Suíça – onde tudo funciona de maneira milimetricamente precisa – o Real brasileiro atualmente vale apenas 0,18 francos suíços. Isso nos faz refletir sobre as duas realidades presentes no Brasil: partes que se assemelham à “Índia” e outras poucas que se aproximam da “Suíça”. A inevitável reflexão é sobre qual delas desejamos nos aproximar no âmbito econômico para gerar prosperidade.

Viajar é expandir a Zona de Conforto – através do Desconforto

A Índia está localizada no extremo oposto do planeta, com preceitos e bases que formam uma sociedade completamente diferente da nossa. O fuso horário é adverso, enfrentamos longas horas de voo sem dormir e, inicialmente, pode ser difícil distinguir os alimentos que estamos consumindo. Além disso, os banheiros são diferentes, há uma sobrecarga de estímulos visuais e sonoros, e até mesmo enfrentamos perda de bagagens ao chegar lá. Essa mudança radical nos tira da nossa zona de conforto, expandindo nossos horizontes e proporcionando um aprendizado ampliado e um crescimento pessoal.

A burocracia e a informalidade são fatores que atrasam a economia.

Nosso primeiro contato com a Índia ocorreu durante o processo de obtenção do visto, que se dá em um sistema rudimentar e de difícil compreensão. Enfrentamos negativas por motivos como problemas com a foto do passaporte, o que nos obrigou a pagar novas taxas e reiniciar todo o trâmite.

A maioria dos negócios na Índia só aceita dinheiro e opera na informalidade, estimando-se que menos de 20% da economia indiana seja formal. Apenas em shoppings e estabelecimentos de maior valor agregado era possível pagar com cartão de crédito, e mesmo nesses casos, as notas fiscais eram feitas à mão.

Poluição e Ruas caóticas: atrasos estruturais que freiam o desenvolvimento

Durante nossa estadia, testemunhamos o país se tornar o mais populoso do mundo, com 1,408 bilhão de pessoas. Apesar de ter uma área significativamente menor que o Brasil, a densidade populacional é 16 vezes maior por metro quadrado em comparação com o nosso país.

Essa superpopulação traz desafios, e a falta de saneamento básico é evidente – lixo e esgoto correm pelas ruas; motos e riquixás transitam buzinando freneticamente entre vacas, macacos, cães vira-latas e seres humanos, em um caos “ordenado”. A capital do país, em particular, sofre com uma névoa densa de poluição.

Essas falhas estruturais nos chocam, pois atrasam o desenvolvimento do país. Dada a dimensão da população, o desafio de corrigir esses problemas é incomensurável e também cultural.

Essa experiência nos faz olhar para os obstáculos do Brasil com maior leveza. Nosso país possui condições muito mais favoráveis e uma cultura mais consciente em relação a cuidados ambientais – embora ainda tenhamos cidadãos que joguem lixo nas ruas e passem por dejetos sem recolhê-los.

Pontualidade gera Riqueza

Durante nossa preparação para a viagem, lemos um livro que mencionava as semelhanças entre a Índia, o Brasil e a Itália – países conhecidos pela falta de compromisso com a pontualidade e o cumprimento de horários.

Esse problema é grave na Índia. Pegamos um trem noturno para atravessar o país que atrasou mais de 3 horas e chegou em uma plataforma diferente da indicada. Isso gera uma grande insegurança para os visitantes e para aqueles que desejam fazer negócios. Não tenho dúvidas de que a falta de valorização da pontualidade é um fator que precisa ser corrigido para impulsionar a economia indiana.

Nosso país enfrenta um problema semelhante. Ainda prometemos e não cumprimos prazos, iniciamos reuniões depois do horário marcado para “esperar os atrasados”. Precisamos ser mais firmes – os líderes devem dar o exemplo e moldar a sociedade.

Desigualdade, Inocência e Humildade: o coração é quente

É impossível não se emocionar com a inocência do povo indiano. As religiões falam muito sobre o “karma” – a crença de que existem outras vidas baseadas na evolução espiritual. Os roubos são praticamente inexistentes e nos sentimos muito seguros. A “maldade sexual” que muitas vezes presenciamos no Ocidente é raramente vista lá, talvez devido aos costumes milenares de pureza e casamento.

A independência do país é recente, datando de 1947, por isso o “homem branco hétero” ainda é reverenciado. As pessoas nos paravam o tempo todo para tirar fotos e em lugares com filas quilométricas, havia uma entrada “exclusiva” para estrangeiros. Era um privilégio constrangedor.

Ainda existem diferenças de castas, especialmente nas áreas rurais, onde as pessoas nascem e morrem sem poder ascender socialmente. Os casamentos, em particular, são arranjados pelas famílias dentro desses grupos.

As mulheres são muito respeitadas e recatadas, mas seu domínio é principalmente no âmbito doméstico. São poucas as que se aventuram nas ruas, e quando o fazem, estão sempre muito cobertas com sáris e cuidadosas com os detalhes de tatuagens, adereços e piercings.

No início, o afeto entre os homens, que chegam a andar de mãos dadas nas ruas, nos choca. Eles nos acolhiam e rapidamente nos sentíamos como melhores amigos, onde quer que estivéssemos. Demorou um tempo para não estranhar, devido aos preconceitos e malícias que carregamos aqui.

Tudo isso nos faz refletir sobre nossas “castas” não evidentes no Brasil, o endeusamento aos nossos “colonizadores” e também nossa “malícia” inerente em tudo, que acaba oprimindo.

O Básico nem sempre é óbvio, mas faz a diferença

No hotel da capital, causava surpresa o fato de o número dos andares não coincidir com o número dos quartos. Por exemplo, o quarto 802 ficava no 6º andar, o que gerava muitos transtornos. Isso é um padrão internacional, mas alegavam que os dois primeiros pavimentos haviam sido transformados em lojas.

Da mesma forma, tínhamos que reconectar a internet wireless constantemente para falar com nossas famílias. A conexão caía frequentemente e exigia uma nova senha em todos os lugares onde ficamos.

Além disso, encontramos problemas como água gelada no chuveiro, falhas nas camas compartilhadas e falta de travesseiros. Podíamos ligar e solicitar várias vezes, mas raramente éramos atendidos, apesar das promessas.

Se pedíssemos uma direção na rua, mesmo que a pessoa indiana não soubesse, ela iria apontar algum caminho.

A lição é observar o nosso negócio, inclusive o que parece óbvio. Devemos ouvir e atender às demandas dos clientes, não deixar “o que sempre foi assim” sem questionamento e cumprir prazos e solicitações.

Equilíbrio e Espiritualidade, lições para a felicidade

Testemunhando a pobreza e as dificuldades – 35% dos indianos vivem com menos de 1 dólar por dia e o quanto o povo indiano deveria ser sofrido e desgostoso, acabamos percebendo o contrário: eles parecem viver em um estado de satisfação interior e plenitude. Nos ensinam muito sobre o nosso incessante desejo por bens materiais, riqueza e conquistas.

A espiritualidade na Índia é milenar, com crenças em milhões de deidades. Visitamos um templo Sikh, que prega que a religião deve alimentar as pessoas, e voluntários servem 40 mil refeições diárias em suas instalações.

Também estivemos em um templo ao Deus Krishna, onde praticam a religião através da dança. O Budismo, que nasceu no país, cultiva a calma, a reflexão e a busca interior.

Existe uma mensagem constante de que “o mundo exterior é uma ilusão, a verdade está dentro de cada um de nós”.

Apesar da sujeira do ambiente externo, os indianos são pessoas limpas e cuidadosas consigo mesmas, higienizando-se muito após usar o banheiro. Sua alimentação é baseada em vegetais e comida natural, e o consumo de álcool é raro – o que nos faz refletir sobre nossa dependência ocidental em relação a esses aspectos.

A medicina ayurvédica prioriza a prevenção e busca as causas dos problemas, em contraste com a medicina ocidental, que se concentra nas consequências e nos cuidados pós-problemas. Na Índia, são utilizados produtos naturais. Não vimos obesidade ou pessoas doentes durante a estadia lá.

A Arte do Comércio, os indianos são os mestres

Há 500 anos, o mundo atravessava os mares para fazer negócios com a Índia, e foram as tentativas de encontrar rotas alternativas que levaram os europeus às Américas. Sem dúvida, a comida e os temperos indianos são incomparáveis, assim como as pinturas, esculturas e tecidos de qualidade jamais vistas.

No entanto, o que mais impressiona é a habilidade dos indianos em negociar. Fica evidente que eles praticam essa arte há séculos.

É raro encontrar produtos com preços fixos. Os indianos primeiro acolhem o cliente, entendem seu perfil e, em seguida, iniciam a barganha. Para produtos de alto valor agregado, especialmente artesanatos sofisticados, eles criam uma cena para destacar a qualidade. Mostram os artesãos trabalhando, revelam a vida difícil que levam e ressaltam a quantidade de horas dedicadas a cada peça, entre outros aspectos. Isso gera uma comoção nos compradores e valoriza seus produtos, levando em consideração também o poder aquisitivo dos estrangeiros.

Embora muitas vezes seja desgastante enfrentar horas de negociação e incerteza sobre se estamos pagando um preço justo, essa experiência nos ensina a maestria com que eles lidam com essa “arte”.

A importância de outros idiomas vai além das fronteiras da comunicação

Uma das maiores riquezas de uma viagem está no contato com as pessoas locais. E o verdadeiro “conhecimento” só ocorre por meio da comunicação direta, do diálogo.

O hindi é um idioma muito difícil para nós, e mesmo sendo uma antiga colônia britânica, o inglês falado pelos indianos tem um forte sotaque. No entanto, conseguimos nos relacionar e aprender com esse povo maravilhoso.

Ouvimos um grande sábio, reconhecido internacionalmente, que mesmo com tradução simultânea confessou estar estudando diariamente através do aplicativo Duolingo. Essa experiência nos inspirou a continuar evoluindo e aprendendo outras línguas.

Nossa jornada pela Índia revelou um mundo de contrastes, descobertas e aprendizados. Através das experiências vivenciadas, aprendemos sobre equilíbrio, humildade, espiritualidade e a importância do cuidado com a limpeza ambiental. Pontualidade, respeito, busca interior e negociação habilidosa também se destacam como ensinamentos poderosos. O Brasil pode se inspirar nessas lições, moldando seus negócios e sociedade para um futuro próspero, equitativo e consciente. É hora de aplicar esses ensinamentos de forma impactante, construindo um país resiliente, inovador e sustentável.

Fotos: Manoela Trava Dutra

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