
O cenário de dólar forte e juros mais altos esperado para os EUA no governo de Donald Trump, que para os mercados emergentes sempre foi associado a notícia ruim, pode ter seus efeitos limitados. A avaliação é de Chris Willcox, executivochefe global do J.P. Morgan Asset Management, que administra US$ 1,5 trilhão em ativos. “Não estou dizendo que esse quadro tornou-se automaticamente bom para os mercados emergentes e que não haverá dor, mas provavelmente já não é algo tão ruim como foi no passado e deverá ser suplantado pelo crescimento maior na economia global”, afirma.
Para Willcox, que conversou com o Valor em visita rápida ao Brasil, que foi sede da conferência anual sobre investimentos do J.P. na América Latina no fim de novembro, todo esse ajuste importante de preços mostrou, entre outros fatores, que o mercado não acreditava na vitória de Trump. E é resultado da interpretação de que o novo governo americano vai gastar mais, seja pela via do aumento dos investimentos em infraestrutura ou pelo corte de impostos.
Espera-se, segundo o executivo, uma explosão fiscal, e isso pode significar, pelo menos para os EUA uma das maiores economias, com influência sobre o resto do mundo uma mudança no equilíbrio entre as políticas fiscal e monetária, essa última usada há cerca de dois a três anos pelos bancos centrais para fazer com que as economias reagissem. Nesse contexto, diz, é factível esperar a volta a um mundo potencialmente mais inflacionário, o que exigirá alta de juros.
Mais crescimento, diz Willcox, explica a reação positiva dos mercados desenvolvidos, com a bolsa subindo, especialmente as ações do setor financeiro, que também ganham com juro maior e a perspectiva de menor regulação. Para os emergentes, reconhece ele, não surpreende que os mercados tenham apresentado uma reação negativa à vitória de Trump. “Mas nós continuamos bastante positivos no longo prazo, porque no fim das contas acreditamos que o mundo precisa de crescimento.”
Na visão de Willcox, se as principais economias do mundo crescerem, isso será positivo para os emergentes, com destaque para produtores de commodities (que ganham com preços mais altos), até porque eles têm uma economia muito mais saudável do que há 10 ou 15 anos. Hoje, o dólar forte já não é um grande problema, uma vez que boa parte dos emergentes, argumenta, tiveram uma redução importante da dívida em moeda estrangeira.
Ele lembra ainda que mesmo para os emergentes importadores líquidos de energia, que sofriam com a alta do dólar e, consequentemente, dos preços de combustíveis, o efeito tende a ser limitado. Hoje, com a oferta maior de petróleo no mundo, os preços estão muito menores, diz. “Os emergentes já vêm convivendo com um dólar forte há algum tempo. Trata-se de ajustar a economia”, acrescenta. A expectativa, segundo Willcox, é que os ativos sofram com a “reprecificação” e um período de incertezas no curto prazo, mas a confiança pode ser renovada a depender das perspectivas para o governo Trump. A guinada para um mundo mais protecionista, pondera, é um ponto de atenção que deve ser acompanhado de perto.
O mesmo raciocínio vale para o Brasil. “Dada a percepção de caos no país neste ano, especialmente no campo político, é fácil se esquecer disso”, afirma. Mas, acrescenta, quando se analisa o que era a economia e o que é hoje, o Brasil tem todas as condições para ser bem-sucedido, como avanços em termos de desenvolvimento social, recursos naturais e até um volume importante de reservas internacionais para amortecer choques externos.
Willcox destaca ainda que os problemas do país foram diagnosticados, entre eles o crescimento orientado pelo consumo, e parte das soluções apresentadas, como as tão necessárias reformas para a retomada da economia. “O Brasil apenas necessita de boas políticas e lideranças. Temos esperança de que o país terá uma economia de sucesso”, diz.
Tanto que o J.P. Morgan mantém seus planos de crescimento para a América Latina, onde está há 15 anos e tem US$ 135 bilhões em ativos, e para o Brasil, cujo escritório é mais recente, desde 2011. A região é parte pequena no negócio global, conta Willcox, mas vem crescendo. Hoje, são dois escritórios, um no Brasil e outro no Chile, além de um ponto nos Estados Unidos dedicado exclusivamente a atender clientes da região, e o banco se prepara para abrir mais dois, na Colômbia e no México. “No longo prazo, acreditamos na importância da América Latina e do Brasil”.
No Brasil, a ambição do J.P. é ser o primeiro gestor independente, não ligado a banco comercial. Com R$ 23 bilhões em ativos no país, a instituição ocupa a 16ª posição no ranking de gestores de fundos, segundo a Anbima, que é liderado por grandes instituições comerciais brasileiras, como Banco do Brasil, Bradesco e Itaú, e tem ainda estrangeiros à frente, como Credit Suisse, BNP Paribas e Western Asset.
A despeito da concentração da indústria de fundos, para ganhar mercado, Willcox aposta na expertise global, até porque as plataformas dos grandes bancos distribuem seus produtos. Ele reconhece que o alto juro local é um desafio para o negócio, uma vez que funciona como um obstáculo à diversificação global dos investimentos. Mas, pondera, os planos para o Brasil são de longo prazo. “Quando se leva em conta mercados como o brasileiro, somos muito lentos para entrar, mas também para sair”, diz.
Vital Menezes, executivo-chefe do J.P. Morgan Asset Management para América Latina, ressalta que a baixa diversificação global não vai durar para sempre. A queda consistente e sustentável dos juros pode levar o investidor a ter no futuro de 3% a 5% dos recursos fora, estima. “E quando esse tempo chegar, nós queremos ter um papel importante nos investimentos offshore”, afirma o executivo
Fonte: Valor Econômico