Quando Euclydes Barbulho nasceu, em 1934, a expectativa de vida no Brasil era ligeiramente inferior a 45 anos, nível registrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 1940, quando o país passou a acompanhar o indicador. “A gente foi enganado. Estamos vivendo muito mais do que se previa”, ele brinca, enquanto enumera os desafios para se alcançar o que chama de “aposentadoria tranquila”.
De fato, a humanidade vem, há décadas, subestimando sua capacidade de viver mais e, de outro lado, exagerando no número médio de filhos das famílias “do futuro”. Uma equipe de cinco economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) destacou esse descolamento em relatório divulgado recentemente, em que se comparava a evolução das projeções dos parâmetros demográficos desde 1960 – a natalidade nos países considerados mais desenvolvidos e a mortalidade nos menos desenvolvidos – com o que foi efetivamente observado.
Na nota “As consequências fiscais da diminuição das populações”, o economista Benedict Clements, que forneceu os dados à reportagem, pondera, com os colegas, que as pressões do envelhecimento populacional podem ser ainda maiores do que os especialistas preveem hoje, caso as projeções das variáveis estejam, como em períodos anteriores, subestimadas.
Com os números atuais, os economistas calcularam o impacto para um grupo de mais de cem países, levando em conta não apenas a previdência, mas também os gastos com saúde – que tendem a crescer à medida que a proporção de idosos em um país avança – entre os irmãos Barbulho, Euclydes e Zilda têm planos de saúde e Jandyra, Egydio e Adelina usam o serviço público.
Nos países desenvolvidos, o “gasto com envelhecimento” cresceria 8,5 pontos percentuais até o fim do século, para 25% do Produto Interno Bruto (PIB). Nos Estados Unidos, o peso superaria 32%. Nas nações menos desenvolvidas, a escalada seria maior, dos atuais 5,5% para 16% em 2100. “A causa principal serão os custos com saúde. O gasto com aposentadorias se manterá relativamente moderado, graças às reformas, que reduziram o incremento previsto”, concluem.
Em todas as regiões, um aumento desta natureza poderia levar a um avanço “insustentável” da dívida pública, à necessidade de cortes em outras áreas e de elevação de impostos. Assim, eles recomendam que os países continuem pensando em novas reformas, inclusive nos sistemas de saúde, para evitar ajustes “problemáticos” no futuro.
“Todo o mundo vai ter que começar a pensar em saúde em algum momento”, concorda o economista Rogério Costanzi. No caso da reforma que se estuda implementar no Brasil, ele acrescenta, tão importante quanto estabelecer a idade mínima para aposentadoria é atualizar esse piso à medida que a expectativa de vida avançar. Um ajustamento automático evitaria desequilíbrios como os que se veem hoje – com benefícios pagos por períodos longos, que em alguns casos se aproximam inclusive do tempo de contribuição – e a emergência de mudanças no curto prazo.
Os Barbulho, que já vivem 50 anos mais do que as projeções apontavam quando eles nasceram no bairro da Mooca, na zona leste de São Paulo, fazem questão de comemorar o escorregão dos demógrafos e estatísticos. A ideia de reunir os irmãos e os familiares em um “natalzinho” surgiu em um dos aniversários de Euclydes, alguns anos atrás. “Minha filha todo ano pergunta se eu quero presente ou festa… mas ela sabe, eu gosto é de festa.”
Fonte: Valor Econômico